04/01/2016

Um par de desilusões

Há algum tempo já que ando para fazer uma publicação deste género, ainda que, mesmo agora que a escrevo, não saiba em que formato vai sair. Frases terá, cabeça, corpo e membros é que já não sei. 

A verdade é que o assunto não é nada de mais, trata-se apenas de uma mera constatação das duas maiores desilusões que tenho quanto a surfistas que chegaram ao Tour, carregados de promessa, levados ao topo por um brilhante plano de marketing e com uma forte reputação assente em vitórias e vídeos, e nada fizeram (ou continuam a não fazer).

Sinto que escrever apenas os seus nomes já fazia uma boa parte do trabalho mas, enfim, não é para isso que aqui andamos, certo? De qualquer forma, aqui vão eles. Malia Manuel e Dusty Payne. E atenção que a ordem não se deve a cavalheirismo, antes sim à suspeita de que quem dera a Payne ter a carreira da sua compatriota.

O Dusty era uma estrela de filmes. Modern Collective, Lost Atltas, os vídeos do Julian Wilson, enfim. O que ele mostrava em vídeo é inigualável e digo-vos mais, ainda hoje estou para ver aéreo mais espontaneamente técnico que o deste havaiano no fim do Lost Atlas: um aéreo reverse estratosférico, em cima da areia, mas onde a rotação surge atrasada, ao melhor jeito late do skate. Talvez a propensão para este tipo de manobra justifique a sua carreira atormentada por lesões e, por extensão, a falta de resultados no World Tour. Ainda assim, custa-me a aceitar. Trata-se de um tipo que em vídeos se mostra ímpar mas que no World Tour não conseguiu fazer melhor que um 24º lugar no ranking, no seu ano de estreia. Saiu do circuito em 23º no ano de 2013 e voltou em 2015, quando ficou em 36º, caindo novamente para o circuito de qualificação, ficando por saber se vai tentar a qualificação pela terceira vez. O seu melhor resultado num evento do Tour foi em 2011, em Snapper Rocks, onde obteve um 5º lugar, sem fazer um score melhor que 14.07. Da sua passagem pela elite lembro-me de em Rincon, Bells, ter feito uma manobra fantástica, a chutar o tail e rodar a prancha, enfim, coisa de filme.

A Malia Manuel é um caso diferente. Teve, naturalmente, uma carreira de sucesso na NSSA e restantes circuitos júniores mundiais, competindo ao lado da Carissa Moore, Coco Ho, Alana Blanchard, Sage Erickson e afins. Contudo, teve a sua revelação mundial muito mais cedo que as demais, ao vencer o US Open Of Surfing com apenas 14 anos em 2008. Era a next big thing do surf mundial. Um ano depois, repetia a presença na final, ficando desta vez em 2º lugar, atrás de Courtney Conlogue. Só em 2011 se volta a ouvir falar de Manuel e, claro, pelos melhores motivos: varre o circuito de qualificação, qualificando-se com facilidade e antes do fim da época para o WWT de  2012 e, mais importante, é uma das estrelas de Leave a Message, o filme só com miúdas da Nike 6.0, marca já defunta (lá em baixo, a partir dos 1:30). Quem não sabia quem era, ficou a saber: a havaiana mostrou-se novamente ao mundo de tail solto, pauladas veriticais de backside e bonito sorriso. A estrela do filme é, claro, Carissa Moore, mas Malia aparecia num sólido segundo lugar qualitativo da produção cinematográfica. Pena que a sua carreira, tal como a de Dusty, tenha seguido outro caminho. O seu melhor resultado num evento do Tour foi um 2º, na época de estreia, mas no ano seguinte ficou fora dos lugares de qualificação e teve de usar o ranking do WQS para se manter entre a elite em 2014. Fez-lhe bem o susto pois foi nesse ano que conseguiu o seu melhor ranking de sempre, 5º. Mas foi sol de pouca dura em em 2015 ficou no WWT por uma unha negra.

Pelo surf que mostravam antes de chegar à elite e o que prometiam, via no Dusty um candidato ao top 10 (e, com sorte, ao top 5) e na Malia uma candidata a um título mundial (ainda que com poucas chances de o ganhar. Olá, Steph! Olá, Carissa!). Hoje, Payne é estrela de Psychic Migrations, filme da Volcom (ali em baixo), e gostava de o ver dedicar-se a este tipo de coisa e parar de usar o seu tempo numa coisa para a qual não foi talhado. Já Malia, arrisco dizer que o seu lugar ao sol já vai longe e espero dela a luta pela permanência contra algumas surfistas melhores e outras que apenas sabem competir melhor que ela.

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