24/11/2015

Desculpem mas não faz sentido o Bruce estar no Pipe Masters

Perdoem a minha insensibilidade mas lembram-se da última vez que o Bruce Irons fez alguma coisa digna de nota em competição?

Eu digo-vos.  Há 7 anos atrás. 2008, Indonésia, depois de ter anunciado a sua saída do World Tour. O Bruce estava farto daquilo. Queria fazer outras coisas. Estava farto da pressão. Nesse ano, já com o surfista decidido a pendurar as botas no fim da época, o Tour foi até um dos locais mais livres do mundo do surf e Irons estava em casa. E relaxado. Venceu a prova de forma categórica e teve a sua saída de sonho. Desde então, em competição, há pouco mais a mencionar. Desde 2008. 

No Pipe Masters desde que saiu? 17º, 37º, 37º, 37º, 25º. 
No Volcom Pipe Pro? 9º, 9º, 5º, 9º, 33º.
O ranking dele no WQS desde 2011? 337º, 231º, 250º e 343º.

Novamente, perdoem a minha insensibilidade e acrescento o pedido de não a tomarem como sendo um ódio pessoal. Eu vi o The Bruce Movie, o Dude Cruise e outros mais. Eu sei o surfista que o Bruce foi. E gostava dele! Bastante! Mas é isto mesmo, ele foi este surfista. Já não é. Há um motivo para que ele esteja de nose em branco e um Shane Dorian ou Rob Machado, não. As coisas mudam.

O que me leva precisamente ao ponto a que quero chegar. Como se explica a campanha nas redes sociais? E por que raio lhe vão dar o wildcard para o Pipe Masters? O que é que ele fez para o merecer? É que em competição, como já se viu, não foi de certeza que o fez. E no freesurf, bom, mostrem-me alguma coisa recente que tenha feito e que o Eli Olson ou o Koa Rothman não façam também.

E nem atirem a pedra do Andy, não façam isso. A prova ser em memória do tricampeão faz todo o sentido. O Andy venceu lá por três vezes e foi ali que se consagrou como lenda. Quem não se lembra das finais contra o Kelly? Além disto, a prova é do seu patrocinador de (quase) sempre, a Billabong. É um justa e merecida homenagem que o Pipe Masters aconteça em sua memória. Mas só isto é suficiente. Não temos de dar também o wildcard ao Bruce. 

Está na altura de seguir em frente. Aceitar que a carreira do Bruce chegou ao fim e que ele não vai voltar a ser o surfista que foi. Aceitar que o tempo passou. E aceitar que o Andy já não está connosco. E parar de querer ver no Bruce o seu irmão. O surf do irmão. Os feitos do irmão. O domínio do irmão. Libertá-lo desse fantasma. Dessa pressão até. Vejam qualquer entrevista que o Bruce tenha dado nos últimos anos e vão rapidamente perceber que o fardo da perda do Andy está lá presente. Sonante. Pesado. Esse fardo não vai desaparecer. Nunca. Eu não perdi nenhum irmão mas já perdi pessoas. O desaparecimento anda connosco para sempre, à esquina de qualquer distracção. Há que aceitar isso. Fazer o luto e não tentar tapar o vazio com trivialidades.

Não me quero meter na sua intimidade mas parece-me que o Bruce tem de aceitar esse vazio. E aceitar que o seu tempo passou. Deixar o wildcard do Pipe Masters para alguém que de facto o mereça seria uma boa forma de o começar a fazer. De o começarmos a fazer.

Bruce Irons em tempos mais felizes. Aqui, a caminho da sua primeira e única vitória no World Tour. Foto: WSL/Kirstin

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