08/11/2015

Apito final (isto não é um resumo)

Já lá vai mais de uma semana desde que o árbitro da WSL apitou o fim do Moche Rip Curl Pro Portugal. Eu vi a final, em casa ou na rua, já nem me recordo. Mas acho que não a vi toda em directo, na verdade. E nem sei porquê. 

Esperem, acabei de me lembrar que não vi em directo nem o 10 do Filipe Toledo nem o aéreo do Ítalo. Mas já falamos do Ítalo.

Voltando um bom bocado atrás. No penúltimo dia de competição, terça-feira, o placard marcava 6-7, vantagem para o Oeste. Pois que o Moche Rip Curl Pro Portugal só voltou à água na sexta-feira pelo que... 8-7? Ainda não sei onde prefiro ver o campeonato, mas sei que quando há muitos lay days, prefiro estar pelo sofá ou num lineup mais vazio que os de Peniche.

Sexta-feira. Último dia de prova anunciado de repente. Frederico Morais e Vasco Ribeiro ainda em prova. Tudo pode acontecer. Estou entusiasmado. O que é que eles vão fazer?! A praia, um estádio. O trabalho, um trabalho. Os colegas, trabalhando. A malta do campeonato, vendo o campeonato. 8-8 para Peniche. Aquela malta vale muitos pontos.

O Frederico perdeu nos quartos-de-final. F*dasse... 9-8.

Mas o Vasco chegou às meias-finais, F*DASSE! 9-9.

Abramos parêntesis. (

Perguntem a dez pessoas de nacionalidades diferentes (atenção aos aussies, aussies, aussies...) e garanto que terão outras tantas opiniões sobre a carreira do evento português ao longo dos tempos. Os argumentos revolverão maioritariamente na imprevisibilidade do evento. Um evento que não coroa um campeão mundial (apesar de isso estar sempre na calha) e que não facilita a vida ao ponta-de-lança. Um evento que baralha as contas e que manda o espectáculo para onde deve estar, no Havaí. Um eventos dos underdogs. Um evento que só num ano teve ondas perfeitas. Um evento que tem ondas de QS e que reduz as chances dos bons ganharem a coisa. Um evento mediano.

Sabem o que é curioso? Eu digo-vos. É que os que amam ou odeiam a prova de Peniche, têm os mesmos argumentos. É tudo uma questão de como se olha para o copo. Um exemplo:

Estava entre amigos no outro dia. Um deles não gosta do evento português, apesar de gostar de o ter cá. Ele diz que o evento de Peniche não tem ondas boas com regularidade e que não favorece os favoritos. Um outro amigo, pegou neste argumento. "Campeonatos de ondas perfeitas é o normal no Tour e Peniche também já os teve! Mas quantas oportunidades tens de ver os teus surfistas preferidos em ondas banais? No teu país? E não é fixe ver outros ganhar?!".

Opiniões. Copos. Bebe a água e despacha a coisa. Garanto que quando não houver água para beber, vai haver quem se queixe da sede. 

Mas também haverá quem esteja saciado.

)

Voltemos ao placard.

Chamem-me amargurado ou ressabiado, aceito. Mas ter o Keanu Asing no round 5 e o Brett Simpson nas meias-finais é demasiado para um Diogo só. Não lhes dou sequer a honra de valerem um ponto inteiro. Honestamente, é um ponto que custava ver ao vivo. Antes o Chris Davidson nas meias-finais ou o Kai Otton a levar o caneco. 10-9.

Agora o Ítalo, este, aqui temos um ponto inteirinho e bem dado. Vi-o surfar ao vivo, no ano passado, em Cascais e Ribeira D'Ilhas. Na primeira ocasião, nota para a violência com que atacava as junções do Guincho e os aéreos que aterrava. Na segunda, era só o modafucka que ia ganhar o Mundial Júnior (felizmente que o Vasco o impediu). Não fiquei particularmente impressionado na altura, afinal, não se diz que há muito surfistas bons no WQS?

Um ano depois, a história é outra. O cara, de quem eu pouco esperava, arriscar-se a ser o segundo melhor rookie na história da ASP moderna, atrás apenas do Booby Martinez que foi 5º ou 6º. E a comparação não deixa mal nenhum dos dois. Ambos lutadores, bons nos aéreos, humildes, posição evoluída na prancha e uma falta de complexos que deixa qualquer um boquiaberto. Siga 10-10.

E, apito. Não tenho mais argumentos. Não, a Brazilian Storm ao vivo não é um argumento e o Filipe Toledo também não. Não houve mais comida caseira nem surfadas dignas de pontuar. Já estou habituado à chuva e a verdade é que ela caiu tanto cá como lá. 10-10. Que merda de resultado. Tanta analogia com futebol e nem o resultado faz lembrar os da bola. Só se for os dos interturmas ou lá da empresa.

A verdade é que quem ganha é sempre o raio do copo. E a galinha do vizinho é sempre melhor que a minha. E a relva que a galinácea pisa também é mais verde do outro lado da cerca.

Honestamente, o que é que esperavam? Ou melhor, o que é que eu esperava? Decidir que nunca mais ia a Peniche, quando neste momento ter de esperar um ano (ou mais) para voltar a estar naquelas bancadas me está a dar calafrios? Ou decidir que ficar em Lisboa é a melhor solução, aterrorizado pela memória de dias cinzentos de chuva e sem ondas?

Depois do apito, a campainha.

Falei muito de competição pelo que arranco agora pelos freesurfs. Que foram bons. Que deram boas ondas e boas fotografias, como as que se vêm aqui na Surfer Magazine, capturadas através das lentes do português André Carvalho, e aqui na Surfing Magazine, pelas lentes do Corey Wilson (que foi para dentro de água, o que é sempre curtido de ver).

E sim, todo o Mundo viu que as ondas estavam melhores lá e houve mesmo quem se perguntasse por que razão não foi a prova para aquelas bandas, onde até já foi em anos passados. Há razões e ninguém mais indicado para as explicar que o Francisco Spínola, representante da WSL em Portugal, numa esclarecedora entrevista em duas partes da SURFPortugal. Primeira parte, segunda parte e, em baixo, um excerto daquela.

"(...) É como a questão da aberta, na Lagoa de Óbidos. Estavam todos excitados que a aberta estava com ondas ótimas, diziam que tinham apanhado o melhor surf da vida deles. O Kelly Slater também me disse que apanhou lá das melhores ondas. Tudo bem... então e quantos heats fazemos na aberta? Cheguei lá com o Travis Logie [comissário da WSL] para ver o local e estavam uns closeouts de uma ponta à outra. Aquilo deve ter dado cerca de duas horas de surf. Em duas horas de surf não se faz um WCT. Isto para começar...

Depois, se porventura aquilo desse altas ondas e fosse consistente ao longo do dia para fazer heats e fazer o campeonato, aí sim íamos para a segunda questão: é possível ou não? É possível ir para a Almagreira ou é perigoso por causa das arribas, sendo que este é um evento que coloca 15 a 20 mil pessoas na praia. São este tipo de questões que se têm que levantar. Adorávamos fazer em todo o lado e estar móveis a 100 por cento, mas a realidade é que há questões de natureza técnica e de técnica de surf – uma coisa é apanhar altas ondas quando a maré está a encher duas horas, outra é fazer heats durante oito horas. (...)"

Fico mais uns momentos pela SURFPortugal que, sem surpresa, voltou a ter a melhor (a única?) cobertura do Moche Rip Curl Pro Portugal entre os especialistas. Gostei de várias coisas, nomeadamente desta entrevista ao Filipe Toledo e desta entrevista ao Pinga, treinador do Ítalo Ferreira, do Jadson André e do Caio Ibelli.

Nos generalistas, atenção ao Observador que, obviamente, falou com o coolest mayor on tour e, menos obviamente, falou com Michael e Mason Ho. Já o Expresso foi obviamente atrás do Nuno Jonet que, numa nota pessoal, espero que não se reforme tão cedo. O i foi falar com Chas Smith, personagem menos óbvia quando se trata de WSL mas nem por isso despropositada.

Lá fora, nos especialistas, especial enfoque na Stab. Isto porque se mostraram muito atentos a dois dos mais marcantes momentos do Moche Rip Curl Pro Portugal. A derrota do Mick Fanning e o aéreo do Ítalo Ferreira. Ambos os artigos contam opiniões fortes de pessoas que podem falar pois sabem do que falam. 

E já que falo de um brazzo, se tiverem amigos que não sabem dizer Adriano de Souza, Filipe Toledo ou Ítalo Ferreira, a australiana Monster Children explica.

Fecho Peniche com duas coisas. Uma estimativa de que as ondas portuguesas valem cerca de 400 milhões de euros e a minha resposta a ainda outro conteúdo da SURFPortugal:

É bem possível que seja.

Vai Ítalo! Foto: WSL

4 comentários:

João Guedes disse...

Diogo;

concordo com tudo... ótimo artigo
abs João

Ivo Remuszka disse...

Italo esta atras do JJ tbém, 4 em 2011, salvo engano...

Diogo Alpendre disse...

Negativo, Ivo. Tal como no caso do Gabriel, que entrou a meio do ano, as contas de rookies destes dois são mais complicadas. Tecnicamente, o JJF foi 34º e o Gabriel 12º...

Obrigado, João!

Um abraço aos dois,

Diogo aqui do blog

pixamaiorcatua disse...

Diogo deixa de tentar ser o Lewis Samuels, não chegas lá. Mantem-te a fazer o que sabes, falar na webcast pois mesmo dando um tiro ao lado a cada 3 frases fazes um bom trabalho. Agora, por mais que tenhas lido sobre surf a verdade é que nao viveste o surf até à pouquissimos anos atrás. A tua opinião é merda e mesmo tentando chamar atenção a ti e ao teu blog a tentar criar polémica, continuas a ser um puto mediocre a dizer merda para um blog que 10 pessoas veem...