15/06/2015

Tocaram as campainhas IX

Vamos directos ao assunto, shall we?

Na ressaca das grandes mudanças na liderança da multi-nacional Quiksilver, que levaram à saída de Andy Mooney do cargo de CEO, lugar agora ocupado pelo ex-presidente Pierre Agnes, e apesar dos resultados negativos com que abriu o ano, quero destacar que a marca assinou contrato com dois miúdos americanos com valor: Ezekiel Lau e Michael Dunphy. É importante que as marcas de surf voltem até onde começaram: aos surfistas. Apostar neles e patrociná-los parece-me uma boa forma de regressar a este caminho. Se vale ou não a pena em termos de marketing não me compete a mim apurar. Limito-me a aplaudir que talvez ajude.

Ainda na indústria, a Brain Farm anunciou que vai lançar 11 filmes (!!!) nos próximos 5 anos. Quem é a Brain Farm? O maior estúdio de produção de vídeos na área do entretenimento. Já ganhou Emmys. Produziu o marcante The Art Of Flight (se não o viste e mesmo que não gostes de snowboard, vai ver). E o que é que isto tem a ver com surf? Estão a produzir o próximo e muito secreto filme do havaiano John John Florence. Mas esta é outra conversa.

Falemos sobre matinais. Tu que estás a ler isto, gostas de as fazer? A norte-americana Surfing Magazine não gosta e escolheu uma forma bem engraçada de explicar por quê: um artigo sobre cinco lições retiradas de uma semana a tentar entrar na água de noite.

"(...) Lesson No. 1: Get your shit together. Board in car. Suit dried and turned rightside out. Coffee on autopilot for 15 minutes before your alarm, which should be set 10 minutes earlier than you think. Car backed into driveway. Basically, pretend your house is a crime scene and prepare to flee. (...)".

Descubram Austin. É lá que vai estar a piscina de ondas. 

Em mais um capítulo da história das piscinas de ondas, história essa que apesar do Wavegarden ainda não viu ser escrito um capítulo de sucesso, quem quer ir surfar ao meio do Texas, E.U.A? Eu não! A notícia é da Surfer Mag e dá-me vontade de..de..ir para a praia.

"(...) the wave park will be roughly the size of nine football fields and will feature 11 different surfing areas, with four different surfing levels ranging from beginner to pro. The massive surf lagoon will be able to generate 300 distinct waves per hour that are up to six-feet tall and have barreling capabilities, with rides lasting up to 35 seconds. Allegedly. (...)"

Para começar a tocar no tópico das competições, viajemos até ao blog da Encyclopedia Of Surfing onde Matt Warshaw publicou parte de uma reportagem que é para o californiano uma das melhores alguma vez escritas sobre uma prova de surf (Lacanau Pro, 1999). Vou aguçar-vos o apetite: quem escreveu esta reportagem foi uma mulher que nada percebe de surf, Cintra Wilson. É brilhante.

"(...) Anyone who has fallen in love with a group of uniformed firemen at the supermarket—noticing their polite, jokey teamwork and easy, 100-proof manliness while they shop together for the station—would probably like being around surfers. Like firemen, they’ve seen it all. They’ve plunged over the blue edge of eternity and been held underwater until their lungs turned to cannonballs; they’ve been scraped on sharp animals and poisonous invisible landscapes until all that remained of them was the basics of throbbing humanity; good sense, casual good feeling, good sportsmanship, respect for life. (...)".

No momento vamos-todos-revirar-os-olhos-outra-vez destas campainhas, a ISA voltou a submeter uma candidatura para que o surf faça parte dos Jogos Olímpicos de Tóquio em 2020. A notícia que apanhei é da Transworld Business e este excerto vem das declarações de Fernande Aguerre, presidente da Associação. Há que admirar a persistência do homem...

"(...)“I’m delighted to confirm that the ISA has submitted its application to the Tokyo 2020 Organising Committee for the inclusion of Surfing at the Tokyo 2020 Olympic Games. Our relationship with the Olympic Movement and inclusion in the Games has been a strategic priority for the ISA for many years and we are excited and energised by the spirit of change that has given us this opportunity. (...)"

Família Aguerre. Eu cá não deixava o meu pai usar um fato destes. Foto: ISA

Da ISA saltamos para a WSL, claro. Achavam mesmo que a entidade (amén) ia escapar a um campainhas?

O formato de competição do WT e WWT continua a mexer com o fã de surf que se debate em frente ao computador sobre qual a melhor forma de o revolucionar. O fã ainda não conseguiu, o que não é de espantar. Se a malta que manda no desporto (e que vem de inúmeras áreas da existência humana!!!!!) ainda não conseguiu descobrir um formato mais apelativo, o que te leva a ti, fã de surf, a acreditar que és tu que tens a fórmula! Não tens! Desiste!

Seguem-se dois recentes exemplos. Um relativamente recente da revista Tracks e que recai apenas na escolha dos wildcards (apelo do marketing!) e outro de um desconhecido no The Inertia que deve ter dado vontade ao Bobby Martinez de destruir nove mil lips de Ventura. Que analogia lida. Continuemos. É mau. Não tem campeão do Mundo e é baseado no ténis. É mau.

Respirem fundo. Continuemos.

Aproveitando a boleia dos wildcards, há surfistas que os recebem e se sentem mal quando derrotam quem pertence ao Tour, naquele que será um eterno debate sobre a justiça da existência deste convite especial. Um dia estou num dos lados da questão, noutro estou no outro. Em baixo, a opinião de Reynolds, depois de derrotar o líder do ranking do WT, numa matéria da Tracks Mag.

"(...) “I feel bad for Adriano it’s weird…” said Dane as he trailed off after his heat. “I don’t know. I don’t want to defend that someone gave me that place or whatever but without the rankings mattering and mattering so much to them. I guess I feel like I’m not quite part of it [the tour] and I feel bad when I beat those guys because it’s probably pretty heartbreaking…they’re trying to win the world title.” (...)"

E agora aproveito a boleia da Tracks para vos dizer que a revista está a pontuar pranchas e shapers para "chegar" a um campeão do mundo de construtores, um pouco à imagem do que é feito na Fórmula 1. A ideia é boa mas o surf e as pranchas não são tão lineares como o automobilismo e as suas equipas. Está numa fase amadora mas tem pernas para andar. Espreitem aqui.

Kelly Slater. Quão incrível é este tipo, pá? Agora, o careca lança-se aos parques aquáticos da SeaWorld. O tipo é incrível. Leiam o comunicado em completo aqui no site da WSL (Hey WSL, bom trabalho ao divulgar isto!).

"(...) "Please, tell us, when will SeaWorld allow the animals it holds captive to return to their home -- the ocean -- by retiring them to a seaside sanctuary? (...)"

L'argent, the money, a guita. Foi anunciado de forma relativamente discreta a renovação do acordo de patrocínio da Samsung aos principais Tours da WSL. Eu quase não reparava, não fossem os dois e-mails que a entidade (adoro chamar entidade à WSL, dá-lhe assim um travo a Igreja) enviou com o comunicado.

Preferem o da WSL?

Ou o da Samsung?

O que há a destacar neles:

- Acordo de vários anos, sem dizer quantos;
- Não se sabe o valor do acordo;
- "(...) Building on the award winning "Everyday is Day One" campaign launched in 2014, Samsung and the WSL will once again work closely to develop compelling content for surf fans around the globe. (...)"
- "(...) The water-resistant Gear S and WSL mobile app will play a role in enhancing competition for WSL athletes and both Samsung and the WSL will also work together to further develop technology in the space for future application. (...)"
- "(...) Additionally, Samsung will complement its partnership with the WSL by engaging several WSL athletes in global, regional and local initiatives including: World Champion Gabriel Medina, Sally Fitzgibbons, and Malia Manuel. Samsung also recently featured WSL's own "Superhero" John John Florence alongside Lionel Messi and other global superstars in support of its Avengers promotional campaign. (...)"

De qualquer forma, suponho que sejam boas notícias, não é?

Agora, uma nota sobre a vontade da entidade em ter sobre o seu domínio "todas" as competições de surf. Qual foi a mais recente aquisição? O modesto Four Seasons Maldives Surfing Champions. Um campeonato misto com meia dúzia de surfistas que ao longo de uns dias disputam a vitória em várias categorias de pranchas. No fundo, o modelo de sonho...com um patrocinador de sonho. Sempre atenta a WSL. Este ano, nesta festa, haverá Shane Dorian, Dave Rastovich, Tom Curren e outros mais...

Mais, viram que que a WSL se está mesmo a esforçar por valorizar o seu fã? Mesmo, mesmo! Até está a seleccionar os melhores comentários destes fãs! O mais recente assunto? Será que o "progresso" tem lugar no surf profissional? Errr...

"(...) As the Championship Tour moves from the the punchy beachbreaks of the Oi Rio Pro to the potentially hollow tubes of Fiji's Cloudbreak, fans here have been debating what progression's place should be in pro surfing. For some of you, the type of airs that saw Filipe Toledo (BRA) soar to the top in Rio are a snooze-fest: Only places with heavy waves like those in Fiji, Tahiti and Hawaii have merit as elite Tour venues. To others, that kind of high-performance surfing matters too: You can't call yourself the best in the world if you can't make the unpredictable sections of a beachbreak look like gold. As the pros prepare to take on heavy reefbreaks at the Fiji Pro, here's what fans are saying: (...)"

E, por último, repararam que a WSL começou a apostar no "Play"? E, quando escrevo play, refiro-me ao triângulo que aponta para a direita e acompanha a maior parte dos dispositivos electrónicos de vídeo, sejam eles virtuais ou materiais. 

Demorou e só a ZoSea (lembram-se desta?) o conseguiu fazer. Desde que há Morning Shows e outros Shows do género que há conteúdo a ser produzido em directo nos webcasts das grandes competições de surf, nomeadamente, da ASP. Mesmo sabendo que nem todo este conteúdo é interessante e digno de ficar registado (tipo, as calls ou a análise das condições do mar), a verdade é que há bom conteúdo ali no meio. Há boas frases. Há boas conversas. Há boas entrevistas. E, se antes isto acontecia de forma algo espontânea e até inesperada, hoje acontece de forma planeada. Parabéns WSL por isto. Souberam reconhecer este espaço como janela de oportunidade para gerar todo este conteúdo e, por exemplo, preencher as calls dos lay days. Aproveitam a estrutura, aproveitam os meios, aproveitam os surfistas. Faz sentido. Eu aprecio o esforço. Até cortam estes pequenos momentos em vídeos próprios!

Por outro lado, a infame mesa e o Dawn Patrol são parte do desporto procura ser vendido aos grandes canais de desporto norte-americanos, são parte do modelo de aparente sucesso que a ZoSea, inspirada na NHL e NFL, está a aplicar. É típico, é só mais um, não tem nada de fresco. E é, claro...ligeiramente parvo. Mas a culpa não é da WSL. Vão ver a mesa da NHL e tentem não achar o mesmo. Enfim. Claro que preferia algo mais surf mas se isto resulta e os frutos vão melhorar os circuitos...

Mas que estamos a ter mais conteúdo do que alguma vez tivemos é verdade...e porreiro. Alguns bons exemplos de Fiji em baixo. E há que salutar os momentos de brincadeira, mesmo sendo  altamente controlados (atenção ao Turpel). E atenção ao primeiro vídeo com o Kelly, onde o careca se sai com esta: "(...) I'm in a slump, yeah. This is the least amount of confidence I've ever had (...)".









Fecho estas campainhas com uma chamada de atenção para os últimos dois vídeos acima, sobre a retirada de competição do C.J. Hobgood. Nunca foi um dos meus favoritos mas sempre admirei a atitude kamikaze com que surfava nas provas de Teahupoo e Fiji. Um competidor que teve uma carreira digna e honrada e que se retira de igual forma: um senhor. Que agora, reformado da vida de competição, nos traga mais momentos como a segunda onda deste vídeo, num drop que arrisco dizer é dos mais in extremis alguma vez feitos numa prancha de surf:



Até às próximas!

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