30/05/2015

Tocaram as campainhas VIII

Uma coisa de que gosto nestas minhas campainhas é a sua versatilidade. Eu posso fazer delas o que quiser. Aqui, cabem tanto notícias como opiniões, tanto textos como ensaios, artigos e/ou fotografias. Críticas ou contemplações. E, hoje, sinto-me contemplativo. Podes respirar de alívio WSL, hoje não vou atrás de ti.

Comecemos.

Quem me conhece saberá que sou fã de conteúdos online e de peças bem montadas onde o design flui naturalmente com o texto. Isto tanto se pode traduzir em complexos sites como a uma mera fonte preta em fundo branco. Neste sentido, sugiro-vos dois conteúdos que per si já valem a pena ler e que, graças à forma como foram publicados, ganharam uma nova dimensão. São eles o The Fjord da revista norte-americana Surfer Mag (que por sinal está ilustrado com fotografias do homem do momento Chris Burkard) e o Tijuana Surfers da também gringa Surfing Magazine.  A primeira é sobre as Ilhas Faroé, a outra sobre o que é ser surfista numa das mais perigosas cidades do México. Para descobrirem em duas peças belíssimas.

Já que falamos na admiração por conteúdos, sugiro-vos agora um outro que chegou até mim através da lente do Júlio Adler, com um recado para a WSL (estão a ver como se faz?). A Red Bull (quem mais?) pegou em mais uma maluqueira do Jamie O'Brien, a mudança de prancha durante uma onda na Wedge no mais swell da temporada, e fez um vídeo de encher o olho de quem não percebe nada de surf e de quem é especialista. Uma coisa tão simples, um conteúdo tão curtido. Quando tiverem três minutos para aproveitar, carreguem aqui.

Outra sugestão de um conteúdo, que chegou até mim pelo ex-editor online da SURFPortugal e uma das pessoas mais criativas que conheço, o Vasco Mendonça, é esta maravilhosa história da The New Yorker. É um daqueles casos em que o preto no branco do texto é apagado depois da segunda linha tais são as maravilhosas cores que emanam da história. Intitulado "Surfing Into The Adolescence", este artigo autobiográfico descreve a chegada do autor, William Finnegan, na altura com 13 anos, já surfista, a Oahu em plenos anos 70. Finnegan já era surfista mas a forma como a magia das ilhas o contagiou... contagia-nos a nós também. Pessoalmente, senti-me transportado para a época e não pude ficar mais preenchido ao ler o texto. Tudo aquilo que leram sobre o Havaí e a sua evolução histórica (racismo, violência, etc) está aqui transposto mas é apenas um pormenor na história de uma criança que tem o surf como...tudo. Eis o primeiro parágrafo deste que é um dos mais incríveis textos de surf que li na minha vida:

"The budget for moving our family to Honolulu was tight, judging from the tiny cottage we rented and the rusted-out Ford Fairlane we bought to get around. My brother Kevin and I took turns sleeping on the couch. I was thirteen; he was nine. But the cottage was near the beach—just up a driveway lined with other cottages, on a street called Kulamanu—and the weather, which was warm even in January, when we arrived, felt like wanton luxury. (...)"

Deixem-me recuperar o fôlego, que o texto de cima é maravilhoso.

Se já forem pais ou tiverem vontade de o ser e têm a ambição de ter o próximo Gabriel Medina, Nyjah Huston. Kelly Slater, Travis Pastrana ou Tony Hawk em casa, recomendo-vos este artigo do The New York Times intitulado "Is It Wrong to Let Children Do Extreme Sports?". O título do artigo explica bem o que trata e não tenham dúvidas, é um dos assuntos mais prementes da actualidade dos desportos modernos. O assunto merecia mais uns milhares de caracteres mas, enfim, só pelo facto de ter sido abordado vale a pena ler. Talvez assim se sensibilize também mais gente para a questão.

Um parágrafo do texto que vos deve convencer a ler o resto:

"(...) Vani Sabesan, an associate professor of orthopedics at Wayne State University School of Medicine and the lead author of a study on head and neck injuries in extreme sports, worries that kids aren’t mentally ready for these activities. They tend to underestimate risk, and their parents can’t always be trusted to keep them in check. She is especially concerned about adolescents who imitate things they see on TV or in videos, without proper training. “What we’re seeing is a lot of kids thinking maybe they can do what these professional athletes can do,” Sabesan says. (...)"

Desastres ambientais! Que coisa mais maravilhosa, não é? Fiquei bastante aborrecido com as notícias de mais uma enorme fuga de petróleo a atingir uma uma região rica em vida marinha...e surf: Santa Barbara, Califórnia. Foram só 80.000 mil litros de crude. Saibam o que aconteceu nesta notícia da Surfer Magnesta notícia do Surfline e, em português, nesta notícia do Público. É preciso manter o olhar atento aos monstros que permitem que isto aconteça. Um excerto da notícia do Surfline:

"(...) The spill covered about four miles, and beaches in the area remain closed while emergency crews attempt to clean up the mess. Surf spots affected include El Cap and Refugio, and it is unclear whether the area will open up for the upcoming holiday weekend. (...)"

Um sonho. Photo: Oscar Diego Martinez
E já que falamos de ameaças ao mar e às ondas, que tal abordar o regresso das dragagens à quilométrica esquerda de Mundaka? Ao contrário de Portugal, parece que nuestros hermanos estão a ter mais problemas em mostrar ao governo regional o potencial económico de ter uma das melhores ondas do planeta ali à porta de casa. Tendo crescido para o surf com o sonho de surfar esta onda e tendo ficado satisfeito por a ter visto voltar à vida depois das últimas dragagens em 2004, acho isto especialmente tenebroso e apoio completamente o movimento dos irmãos bascos Acero de tentar proteger a onda. Saibam qué pasa aqui (Surfing Life) e aqui Surfer Mag. Um tease: 

"(...) Remember when Mundaka just seemed to disappear back in the mid-00s? It’s always been a fickle wave, sure. But after the wave failed to show up in 2004 following a huge dredging project stripped away some 300,000 cubic meters of magic barrel-making sand from the mouth of the Oka river, Mundaka’s left was simply gone. For two years. Then, slowly, it began to come back to life as its precious sand was naturally replenished, and it resumed its freight-training ways, much to the delight of Europe. (...)"

Ainda sobre ondas, mas numa nota mais positiva, destaque para o conteúdo do Surfline sobre a portuguesa Cave e a australiana The Box. Num mano a mano entre duas ondas igualmente medonhas, venceu a portuguesa. O resultado chegou após consulta de alguns dos maiores especialistas em tubos do planeta. O conteúdo não é fantástico mas não deixa de ser interessante ter alguns surfistas do Tour a falar sobre uma das ondas menos surfadas e mais mediáticas da costa portuguesa. Perdoem-me o ufanismo...

Entretanto, lembram-se do Mickey Smith? Eu não o esqueci, até porque este fotógrafo é o autor de um multi-premiado trabalho que correu o Mundo e do qual sou fã, o vídeo Dark Side of The Lens (se não conhecem, vejam aqui). Mas há muito que me andava a perguntar onde raio ele andava. E não é que a Grind Tv respondeu à minha dúvida? He's a fucking rockstar, man! Confesso que tenho um fraquinho por reviravoltas como esta.

"The music ends, the lights go off in London’s cavernous Alexandra Palace, and, in the darkness, 7,000 people scream in approval. Suddenly the stage lights flash back on, illuminating the UK singer Ben Howard and his band. Just to the left of Howard, Mickey Smith, red guitar in hand, blinks into the light and bows in thanks to the roar of the crowd. 

It seems that one of surfing’s best-ever photographers and filmmakers has morphed into a rock star. (...)"

Saltemos agora para o vasto capítulo das entrevistas. Eu sou fã deste género jornalístico e apanhei várias que, por um motivo ou outro, me convenceram. Não me vou alongar porque acredito que para a maior parte das pessoas o interesse em ler uma entrevista a alguém reside na atracção que o entrevistado, a priori, causa em nós.

Comecemos pelo Beach Grit que entrevistou Peter King, autor dos badalados #TourNotes da Hurley. Uma coisa tão simples e porreira que até a WSL promove...

"(...) BeachGrit: Tell me about making documentaries. 
PK: It works because it’s me. I’ve been around the tour, I know it. I was on tour for three-and-a-half years, back when girls wanted to hang with Shaun Tomson and Rabbit Bartholomew and were 35 years old and wore high-waisted bikinis, do cocaine and all those things I didn’t know about. And what do I remember about my time on the tour? It isn’t the heats. I wanna show the fun. I want to show the silly little conversations. 

BeachGrit: How did you make Tour Notes happen? Even low-budget takes money. 

PK: I’m persistent. And overweight. It’s a deadly combination. Oh, but seriously, Evan Slater (from Hurley, the sponsor of Tour Notes) is a real journalist. He appreciated my ability to deliver something. I just have my iPhone running. Most of Tour Notes is shot on an iPhone. I have a RED camera but I just look at it. (...)"

Num artigo da Stab Mag com o havaiano e surfista do World Tour Freddy Patacchia, gostei de ler esta tirada do goofy. Curioso, não é?


"(...) As far as his last batch of boards, like so many surfers he’s tapped Matt ‘Mayhem’ Biolos. And, he wants the same shapes as Carissa Moore. 

“I asked Matt for a Carissa model because Carissa puts it on rail, full on. She is an aggressive rail surfer. I look at her boards and I’m like, man, she’s really throwing those things around.” (...)"


Foto: The Inertia.

No BeachGrit e sobre o localismo em Lunada Bay na Califórnia, uma onda que é tida como das melhores daquele estado, o controverso designer David Carson, que pode falar sobre o assunto porque lá viveu na juventude, tem esta corajosa tirada:

"(...) BeachGrit: What’s the wildest stuff, specifically, you’ve seen?

 Carson: Lots of ugly, dumb shit. Localism taken to the absurd extreme. The only way you can kinda rationalize it is well, thats them, they are just as big a kook, asshole and jerk wether they are driving, standing in a check-out line, ordering fast food, on dates, at parties, at their kids sporting event or attempting to surf. Always miserable, always jerks. Always assholes. (...)"

Ainda nas tiradas, há que adorar esta do rookie do World Tour Matt Banting que revela bem a filosofia da WSL quanto ao que constitui entretenimento. A entrevista é da Stab.

"(...) “The waves have shit me a little bit. It seems like they just want to run in the biggest, most dramatic conditions possible, which aren’t necessarily the best conditions to compete in. A couple of the afternoons I surfed Margarets and it was 10 foot, windblown and shit happening everywhere. And I couldn’t help thinking, is this really the the dream tour? Then at Bells I had a heat with Joel coming into the high tide and we only got one decent set in the whole heat. But I mean, you can’t blame the waves, cause then in Rio it kinda helped me beat Slater.” (...)"

Agora, ao Coastal Watch, o Luke Egan, ex-surfista do World Tour, mostra MAIS uma vez, quão sortudos são os surfistas profissionais.

"(...) Retiring was the hardest thing I’ve had to do in my life but surfers are lucky because we always have our passion. Rugby League Immortal Andrew Johns said to me, “You’re retired but you can pick up a surfboard right now and go surf as hard as you surfed any heat in your whole career and you get that release. I can’t walk out onto the field and play football as hard as I did ever again.” I wasn’t training much or enjoying my new life but what he said really struck a chord. After that I thought, “No more rest. I have to train my arse off and still surf to the level I gotta surf.” (...)"

Fechamos este capítulo com uma entrevista da What Youth à namorada e mãe do filho de Dane Reynolds, Courtney Jaedke aka Napkin Apocalypse. Se aqueles dois sempre vos pareceram estranhos, sobretudo com aquela história de vestir os seus cães e pombos (!!!), ainda mais vão parecer agora.

"(...) Do you remember the first time you got the dogs together and were taking photos? Have you always been doing that? 

 No, and All of this was never a conscious decision. Even photographing the dogs. It’s just gotten more and more fine-tuned or more elaborate. I have photos of me from when I’m like 9 putting glasses on my dog. I’ve always dressed up dogs and I’ll look back at some of the photos and be like, “Ugh, I can’t believe the lighting in that one,” or, like, “Oh, the dog wasn’t looking at the camera.” So I’ve gotten more particular about how things look, which could be a bad thing but it was never conscious. The more you do anything you just get more particular and fanatical about it. (...)".


Foto: Aframe/Ted Grambeau

Já que falamos de Dane Reynolds, o que dizer da decisão da WSL em lhe dar um wildcard para competir no Fiji Pro? É que não há qualquer tipo de justificação! Nem de ranking, nem de passado histórico no evento, nada! Não me entendam mal, eu adoro o surf do Dane e não podia estar mais contente. Mas parece-me evidente que a decisão é interessante. Creio que a WSL sabe bem onde estão os fãs e está a fazer um esforço para meter o Dane no Tour. Até porque, não sei se se recordam, a prestação dos wildcards já dá pontos para o ranking do WQS...e do Tour. Resta saber se o Dane quer voltar à estrada do Tour...

"(...) Reynolds, a former CT competitor and celebrated innovator of high-performance surfing, has been allocated the wildcard for the 2015 Fiji Pro, which runs June 7-19. Reynolds will face three-time WSL Champion Mick Fanning (AUS) and rookie sensation Wiggolly Dantas (BRA) in Round 1 of competition. This will be Reynolds' second CT event of the season. He competed in the Quiksilver Pro Gold Coast and was eliminated in Round 2 by his upcoming Fiji opponent, Fanning. (...)"

E já que falamos na WSL... Não resisto. A história da WSL se ter candidatado a uma licença de competição em Mavericks (só há uma disponível por ano) parece ter chegado ao fim...este ano. Parece-me que isto é algo rocambolesco. Sabendo que só há uma licença disponível por ano e que nesta temporada esta estava já entregue aos Titans Of Mavericks, porquê a candidatura? Para ver se colava o barro à parede e criavam mais uma? De qualquer forma, parece-me que a WSL não é nada parva e que reconhece a importância de ter um evento do Big Wave World Tour em plena Califórnia.  Por outro lado, creio que quem atribui a licença está doido para a atribuir à WSL e retirar aos Titans Of Mavericks, que nada ainda fizeram pela competição na pesada onda. O Surfline contava-vos o que aconteceu neste capítulo.

"(...) Meanwhile, the WSL “respectfully withdrew” their permit two days ago. 

Turns out, there was an administrative error on the part of the SMCHD. The permit should’ve never been offered in the first place, as Titans of Mavericks already had preexisting terms through 2015-16 as they inherited the Maverick’s Invitational permit. (Check the YouTube of the SMCHD meeting from 2013.) 

"We understood there was a permit available, but came to find out that this wasn't the case," BWWT commissioner (and former event winner) Pete Mel said. "And after long discussions within the WSL, we felt that the best move in the present was to pull the application. That said, most every surfer knows it's one of the best venues in the world and it would enhance the BWWT immensely. We'd love to have it on tour and look forward to that possibility in the future." (...)".

Termino hoje com duas "notícias" que me fizeram rir à grande. Ao melhor jeito de humor brasileiro, do qual sou fã, o Sensacionalista (tipo The Onion nos E.U.A. ou Inimigo Público em Portugal) conta novidades do mundo do surf em terras de Vera-Cruz. Os títulos:



Terminamos por hoje, até breve!

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