19/03/2015

Por que razão a amargura, mate?

Pode ser por lá ter nascido o surf moderno, o IPS e até a ASP. Pode ainda ser à conta da shortboard revolution, de Bells Beach ou de qualquer outro motivo histórico, técnico, demográfico ou de qualquer área outra do surf. Mas eu não sei qual é esse motivo e a verdade é que a arrogância sobranceira raramente tem uma explicação, quanto mais uma explicação lógica. Diga-se apenas que os australianos acreditam ser a ponta da lança do surf mundial. 

O assunto é extenso mas visto estar a chegar a níveis demasiado evidentes nos últimos tempos (Hi, Gabs!), foquemo-nos na ASP e na sua história recente. Mas antes, uma breve lição de História (na qual, por motivos que já vão entender, nos vamos focar nos homens). 

Down Under dominou os primeiros 10 anos de circuito (IPS) num ciclo que foi apenas interrompido por Tom Curren. O pós-Curren foi uma misturada mas a Austrália não deixou de ser o país dominador com quatro vitórias em cinco possíveis até à chegada do alien. Daí para a frente a Down Under foi largamente humilhada pelos americanos. Quão dominada? Permitam-me ignorar a aberração que é o Havaí ser considerado terra própria para aqui escrever que desde o primeiro título de Slater em 1992 e até 2014, ou seja, em 23 títulos possíveis, a Austrália ganhou cinco. 5. Os E.U.A. ganharam 17. 17!

Estou a cobrir um período temporal demasiado longo? Vamos aos últimos 10 anos. 6-4 para o país do Kennedy. Últimos 5? Aí têm caso, 2-2...mas os dois americanos foram do Kelly e dá para falar de apenas um par dos 11 que ele tem?

Isto tudo para dizer que se há alguém que tem motivos para, recentemente, se sentir aborrecido, humilhado, vilipendiado ou derrotado, são os americanos. Os queridos americanos. Que têm o Kelly Slater, o super atleta, cada vez menos super, mais próximo da reforma, que dominou o desporto de forma tão maravilhosa; que não têm ninguém como o Mick Fanning ou Joel Parkinson ou o Julian Wilson para disputar títulos mundiais nos próximos tempos (sorry, Kolohe!); que dominam o corporate mas não têm surfistas. 

E sabem o que fizeram os americanos acerca da conquista do título mundial pelo Gabriel Medina? Rigorosamente nada. Não foram chorar para os seus sites. Não foram fazer troça do mau inglês. Não ficaram ansiosos pela próxima falha do brasileiro para o atacar. Os americanos não fizeram nada.

Estou a mentir. Na verdade fizeram. O Gabriel apareceu numa capa da Surfing Magazine em 2013. Foi número 1 dos Hot 100. Foi aplaudido. Comedidamente, é certo (afinal, ele não é gringo...), mas é respeitado como só um fã americano de desporto - pragmático, pouco vinculado, reconhecido - parece conseguir ser. 

Na Austrália, o caso parece ser outro. O título de Medina parece ter sido uma afronta pessoal a todo o australiano e seu koala ou canguru. Bom, talvez não a todos: a Surfing Life, talvez por ter Nick Carroll no comando, vê que Medina é o futuro. É um brasileiro, é certo, mas é um surfista. É um campeão mundial. É O campeão mundial. Onde estão Julian? Jack? Mick, Parko e Taj são velhos demais para apregoar.

Mas, em (antepen)última instância, tudo isto que escrevi não importa. E o que importa vem agora.

Considero racismo uma palavra demasiado forte para descrever alguns dos comportamentos do media australianos nos últimos tempos e, ainda assim, aí anda a palavra a ser usada gratuitamente. Prefiro denotar uma certa acidez ou amargura nas linhas da Tracks e da Stab. Um certo desprezo. Como se o título de Medina valesse menos ou o brasileiro precisasse de prestar contas a alguém. 

Não precisa.

Medina não esteve bem em Snapper, isso já se sabe. Mas o assunto não foi nada mais que uma trivialidade, um momento de entretenimento num evento que rumava pecaminosamente para o estatuto de pior de sempre. Só a Surfing Life foi capaz de não se ver presa nos preconceitos e reconhecer isso. Outros optaram por abraçar a âncora do sentimento mais fácil. Sim, estou a falar para ti, Tracks Mag.  

A Tracks, a Stab, outros, optaram pelo lucro rápido com uma tempestade num copo de água, ignorando a real e verdadeira que a Surfing Life soube destacar no fim do evento. Com classe ainda por cima.

Só é racismo se houver quem o aponte como isso. Que o expresse e verbalize assim. Que o cubra assim. Que o destaque assim. E, para esses, a vitória do Filipe Toledo foi o (segundo) melhor castigo possível.

Venham mais. Foto: WSL

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