06/04/2014

WWT Top 18 Pós Margaret River

Deixei passar a Gold Coast. Ups. Mas agora é Margaret River e, por isso, vamos a isso. Curtas análises, em poucos caracteres, sobre a prestação de cada surfista. Já sobre esta onda e respectivas condições, destaco o tweet do ilustríssimo Matt Warshaw: "Comp venue should either be A) a break the viewer is dying to suf, or B) a break the viewer is too scared to surf. Margaret is neither". Posto isto, vamos às senhoras, em ordem crescente:

16. Nikki Van Djik - Com um repertório limitado de frontside, Nikki precisava de estar nas melhores e maiores ondas para conseguir ultrapassar as suas adversárias. Tendo crescido a surfar pointbreaks para a direita, a linha está lá mas as manobras de lip, tão importantes em Margaret, não. Precisa de trabalhar nisso.

16. Alana Blanchard - A Alana do ano passado, confiante, segura das suas curvas de rail, é em 2014 uma miragem. Regressou a dos anos anteriores que, eventualmente, a levaram a sair do ranking. Cai onde não pode, não aplica força na prancha e arrisca quando não deve. Tem de deixar de ser a "namorada do Jack Freestone" e voltar a ser "a surfista do WWT".

12. Johanne Defay - Surfista de pisada forte em cima da prancha e confiante nos seus pontos fortes, soube aplicá-los bem nas direitas de Margaret, onda que sem dúvida se adequa ao seu surf. Com tendência para fazer curvas completas, viu a sua tarefa dificultada pelo chop das ondas e, no heat em que perdeu, pela dificuldade em apanhar as melhores. Mas um resultado melhor era possível.

12. Alessa Quizon - A Alessa é, talvez, das mais tenazes competidoras do WWT e isso viu-se bem contra Laura Enever no round 2, num heat que foi apertado e sinto que podia ter ido para a havaiana. A Alessa só precisa de sacudir os nervos de estreante que, logo depois, vai começar a ganhar estes heats.

12. Pauline Ado - O primeiro heat da Pauline em Margaret pode ser considerado inexistente e o segundo, bom, mostrou tudo aqui que faz dela uma boa surfista: boa leitura e selecção de ondas, uma boa manobra off the top e confiança para atacar uma adversária similar em competências. Contudo, mostrou também um défice que lhe custou a derrota: uma linha sem bottom turns e uma segunda parte dos carves interrompida.

12. Coco Ho - A Coco é uma das surfistas mais tecnicamente evoluídas do WWT, contudo, fica sempre a pecar em qualquer coisa: por vezes power, muitas vezes em boas decisões, outras por pouca calma. Há semelhanças entre a forma como ela e o seu brother from another mother Kolohe Andino surfam nos heats e, no fim deles, ficamos com sentimentos também similares: acho que podia ter vencido este heat. Coco chegou à quarta ronda onde esbarrou com uma Sally Fitzgibbons que vez valer uma boa escolha de ondas e acrescida pressão na prancha, algo que em Margaret com fracas condições, em muito ajuda.

10. Paige Hareb - A neo-zelandeza Paige não é surfista de grande repertório, seja de back ou frontside, e, por isso, faz uso do seu backside para mais distintamente aplicar força na prancha, um pouco à la Travis Logie mas sem a grande velocidade do surfista do WT. Com uma força de vontade inimaginável (como se explica que faça boxe amador para ganhar dinheiro para correr o WWT?), Paige é um osso duro de roer e isso vai continuar a dar-lhe semelhantes incursões até à 4ª ronda.

10. Dimity Stoyle - Quando se fala de Dimity, velocidade e comprometimento são duas palavras-chave para a descrever. Das poucas surfistas a atacar o lip à séria e dele tentar retirar algo, viu-se que está bem mais à vontade a surfar nos heats de 2 surfistas do que de 3. A única questão é que, a partir da quarta ronda, não há heats fáceis. Não foi nesta direita que a australiana se destacou mas cuidado com ela que a surpresa está para breve.

9. Laura Enever - A Laura é uma gata. Sim, ela é gira, mas não é disso que falo. É que apesar da estranha posição que tem em cima da prancha, mais disfarçada de backside, Laura consegue fazer coisas espontâneas...e aterrá-las de pé, como um gato. Mas desenganem-se, o 5º obtido em Margaret's foi sobretudo sorte e o surf apenas se viu na segunda ronda. Dizem que a sorte anda com os audazes...e Laura talvez confirme essa regra.

8. Lakey Peterson - Nunca me esquecerei da primeira vez que vi a Lakey surfar: era um sábado ao fim da tarde, eu estava aborrecido de morte a ver a final da categoria feminina open da finalíssima dos NSSA. A Lakey, ainda sem patrocínio, fez um aéreo reverse, um 10, dominando o heat em absoluto e lançando uma corrida ao contrato entre a Roxy e a Nike (a Roxy acabou por ganhar...mas não por muito tempo). Ainda estou à espera de ver essa mesma menina no WWT.

7. Malia Manuel - A Malia é um mistério. É para mim difícil perceber como é que uma surfista tão talentosa pode ser, ao mesmo tempo, tão conservadora a surfar. Tem um fantástico repertório de manobras de parede mas raramente ataca o lip. Se o primeiro tipo de manobras ainda serve para passar as primeiras rondas, sem o segundo não vence os grandes heats. Isto foi bem visível no heat contra Carissa Moore nos quartos-de-final. Se Malia tivesse tanta energia para surfar um heat como tem para defender o seu Kaui'i, talvez tivesse mais sucesso.

6. Courtney Conlogue - Ex-bicampeã de Margaret, Conlogue cresceu a surfar um dos beachbreaks com mais crowd do Mundo: Huntington Beach. Talvez por isso se tenha tornado numa surfista tão dominante nos heats, algo que, aliado a um surf com a mínima qualidade, lhe dá muitas vitórias. Mas o surf de Courtney tem muita qualidade, muito power. Só que colocá-la lado a lado com a estética de Stephanie Gilmore, é quase criminoso. O WWT para ela é como o ditado: tantas vezes o cântaro vai à fonte que um dia há de partir.

5. Sally Fitzgibbons - Sally raramente arrisca e, por isso, raramente cai. A aussie nunca vai fazer uma manobra espontânea que nos vai apanhar desprevenidos mas vai fazer sempre o tipo de surf que nos vai levar a aquiescer e constatar: "Isto é de qualidade". Até há uns anos uma surfista extremamente confiante, as duas (três?) vezes que ficou à porta do título mundial parecem estar a mexer-lhe com o psicológico e, por isso, já não parece aquela surfista que tirava exactamente a nota de que precisava, mostrando-se altamente competente e eficaz. Só o tempo dirá se essa Sally algum dia voltará.

4. Bianca Buitendag - Como se diria em inglês, she cracked the code! Em português, encontrou a fórmula. Surfista alta e forte (ela é tipo uma prancha 6'2 step up para Pipe mas com umas curvas mais elegantes), Bianca é a única esperança numa concorrente goofie footer ao título mundial e, para percorrer esse caminho, nada tem de fazer: é só acreditar em si que o surf está lá todo. Em Margaret mandou água como poucas mas numa onda que apresentou muitos saltos, seria sempre difícil surfar de costas.

3. Tyler Wright - Não me posso considerar fã da irmã de Owen Wright. Tem a tendência para encurtar em demasia os seus carves que, várias vezes, opta por fazer no meio da parede ao invés de off the top. Ainda assim, os litro de água que consegue fazer saltar e o risco que aplica nas manobras off the lip fazem dela uma surfista altamente eficaz no que toca a conseguir sacar boas notas. Junte-se a isto um espírito irreverente próprio da idade (e personalidade) que em muito transparece no surf e temos aquilo que se viu em 2013 e voltou a ver em Margaret: uma candidata ao título mundial.

2. Stephanie Gilmore - Se Mick Fanning e Joel Parkinson fizessem uma fusão e uma mudança de sexo, o resultado seria Steph. A dona do mais desarmante sorriso do WWT tem um surf assente em curvas belíssimas, muito bem ligadas entre si, sempre com água no ar e sem soluços. Terrivelmente eficaz em heats, o surf de Stephanie não deixa por isso de ser, talvez, o mais estético de toda a ASP. A miúda da Goldie raramente fica atrás de alguém e quando isso acontece é por um de dois motivos: falha própria ou quando as suas adversárias assumem uma postura mais progressiva e radical, como se viu nas meias-finais contra Carissa Moore. Mas dêem-lhe oportunidades e verão como - atenção opinião muito pessoal aqui - um bom carve bate qualquer chuto de tail.

1. Carissa Moore - É quase desnecessário falar de alguém que ganha um campeonato: se o conseguiu, é porque alguma coisa de bem fez na prova (ninguém vence por acaso). Rainha do surf feminino do futuro, Carissa só encontra adversárias em duas ou três surfistas e ela própria encontra-se neste grupo. Continuem a admirar o reinado que está aqui para durar.

Carissa, radical. Foto: ASP/Kirstin

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