11/07/2013

Quanto vale um 10?

Originalmente escrito aqui, no âmbito do Oakley Pro Bali e depois de Joel Parkinson fazer duas notas 10 na mesma bateria. 

O ano é 1998, o local Teahupoo e o campeonato o Gotcha Pro, primeiro campeonato da ASP a acontecer na recentemente descoberta onda tahitiana. Conan Hayes e Koby Abberton aguardam impacientemente que o palanque decida quem venceu aquele campeonato que iria ficar para a história do surf de competição. Lembrem-se, os scores online ainda eram uma miragem e, por isso, restava aos surfistas esperar. Depois de alguma demora, sai o veredicto: o australiano Abberton é o vencedor. Hayes abana a cabeça e desaparece, sem dar os parabéns ao seu adversário e sem receber o prémio - sim, o Medina fez o mesmo em 2012, em Peniche. Apesar do 10 dado à sua última onda, o americano não tinha feito o suficiente para ganhar.

Qual o problema?, perguntas tu, atento leitor. É que aquela espetacular onda em particular, foi a melhor onda do heat. Só que não foi o único 10. Talvez hipnotizados por tamanha perfeição tubular, os juízes não estavam a conseguir gerir a escala de julgamento. Assim aconteceu na final, onde Koby, antes de Hayes, também conseguiu uma nota 10. Ingenuamente, os juízes não ponderaram a possibilidade de ser feito melhor que aquilo e quando, poucos minutos depois, melhor foi feito, por a escala estar rebentada, tiveram de dar a mesma pontuação. Hayes, que surfou melhor, perdeu. A vitória de Abberton que, diga-se de passagem, vinha a surfar maravilhas ao longo de toda a prova, ficou marcada por um dos maiores erros que os juízes de surf do WT alguma vez fizeram. 

Saltemos para 2013, Junho. Em dois campeonatos seguidos, alcança-se a perfeição, 20 pontos redondos. Se é verdade que tanto Kelly, nas Fiji, como Parkinson, agora em Bali, estavam em sincronia com o mar, é-o também que a escala, novamente, foi rebentada, embora com consequências menos gravosas. Nas prestações dos surfistas, as duas ondas nota 10 são diferentes, uma é melhor que a outra…mas têm o mesmo score. Afinal, como podem duas ondas surfadas de forma díspar ter a mesma pontuação?

Voltemos atrás no tempo, até Montreal, Canadá, em 1976. Uma pálida menina romena de 14 anos chamada Nadia Comaneci prepara-se para subir às barras assimétricas, aparelho obrigatório da ginástica artística nos Jogos Olímpicos. O surf e esta modalidade podem ter pouco em comum no seu desempenho, contudo, na sua avaliação, são tão próximas como meios-irmãos ou, se isto te for chocante, primos direitos. Na ginástica artística, os juízes avaliam coisas concretas como a velocidade, execução técnica, fluidez, estilo e, até certa medida, comprometimento (faz lembrar qualquer coisa, não é?). Naturalmente, existe uma certa subjectividade na avaliação de cada um dos elementos por cada um dos juízes. Essa mesma subjectividade, transparece também no surf e é muitas vezes uma das cartadas usadas por surfistas e comentadores quando questionam determinadores scores. Tal como na ginástica artística.

30 segundos depois de Comaneci subir às barras, a histeria atingia comentadores, o público do pavilhão batia palmas freneticamente e, curiosamente, o placar de pontuação apresentava a nota 1.00. Até à altura, não eram fabricados placares de pontuação capazes de atribuir duplos dígitos pois a nota 10.0, aquela que os juízes realmente atribuíram, era tida como impossível. Comaneci, que viria a conseguir seis outras notas 10 nesses mesmo Jogos, foi uma fora de série e ficará para sempre conhecida como a primeira mulher - ou homem - a ter conseguido atingir perfeição em ginástica artística nos Jogos. O ano era 1976, os primeiros Jogos Olímpicos modernos foram em 1896. Desde então, novas notas 10 foram atribuídas mas desde 1992 que isso não acontece e, hoje em dia, o novo critério de julgamento da ginástica artística não prevê a sua repetição tão facilmente, ainda que seja possível.

Continua já aqui em baixo.

 

Regressemos ao futuro, não num sensacional carro mas numa tecnologicamente avançada prancha de surf, com 3 ou 4 quilhas. Há pouco tempo atrás, Kelly Slater, que de forma consistente faz notas 10 no World Tour, comentava "eu não acho que obter uma nota 10 deva ser tão fácil como é". Como as coisas mudaram depois disso…ou não. Hoje em dia, é fácil tocar o sino da perfeição singular e é rara a etapa do World Tour em que isso não acontece.

Quando o 11x campeão mundial fez o primeiro 20 da história em 2005, em Tehaupoo, uma porta parece ter sido aberta quase irremediavelmente. Então, na final do Billabong Pro, Slater vinha de prestações arrasadoras e, paralelamente à sua subida de performance, também Teahupoo apresentava cada vez maiores desafios ao que Kelly era capaz de fazer. Sem surpresa, o floridiano respondeu à altura e fez aquelas que foram, de facto, as melhores ondas do dia.

Se é certo que, como os juízes já várias vezes o disseram, o 10 deve ser uma nota emocional, sentida nas entranhas, é certo também que os avaliadores máximos do surf da ASP não se podem deixar levar pela emoção, tendo de resguardar a sua posição (relembre-se Hayes), a dos surfistas e, em última instância, dos próprios 10. Porque se ondas diferentes, num mesmo ambiente, com o mesmo painel, o mesmo surfista, no mesmo heat do mesmo campeonato, podem ter o mesmo valor, afinal qual é o seu real valor?

1 comentário:

NL disse...

Texto muito interessante, com exemplos pertinentes. E recordar o Gotcha Pro de 98 é da maior justiça para um campeonato incrível que caiu no esquecimento, e devia ter servido de alerta para a questão das notas máximas.

E nesse sentido, acrescento que para além da componente emocional - o tal factor "Uauu !!!"; deve também haver um lado racional face ao momento da prova em que ocorrem. Um dez na última onda do campeonato será mais natural do que na primeira onda. Quando as ondas estão perfeitas, o nível actual de competição leva a que as eliminatórias sejam decididas por décimas. Mas uma nota dez, ou duas, acaba com a possibilidade de contrapor um desempenho ainda melhor - mesmo que apenas por umas décimas.

Dito isto, considero que as duas notas dez do Slater em Fiji mataram a final ainda a nove minutos do final. Sem espaço para mais nada acontecer. Da nota vinte do Parko em Bali nem vale a pena falar...

Abr e boas ondas