22/12/2011

Deixem o Dane em paz, pá.

Eu já não pensava escrever nada antes do Natal, daí até ter publicado o maravilhoso vídeo em baixo. Mas não resisti e, para falar a verdade, nem tentei muito resistir.

Esta pausa, como devem já ter suposto pelo título, é sobre o Dane e isto que ele escreveu há uns dias atrás. Primeiro, eu achei brutal o que ele escreveu. Para dizer a verdade, achei das coisas mais bonitas que o surf profissional viu nos últimos tempos. Poucas vezes tivemos oportunidade de entender tão bem aquilo que vai na cabeça de um surfista profissional, mais ainda sendo este um surfista do WT e um dos melhores de sempre. A verdade é que o Dane é um tipo completamente normal. Gosta de surfar, fazer pinturas a lápis, tocar música e ter aulas de piano com uma senhora de 70 anos. Eu gosto de surfar, escrever, comer e contar piadas. Tu, vocês, hão de gostar de fazer as coisas de que gostam de fazer. Acho que o Dane ser um tipo normal é a principal conclusão que podemos tirar do que ele escreveu. Segundo, temos o direito a ser felizes, certo? E muita da nossa felicidade passa por fazer aquilo que bom..nos faz feliz, aquilo que gostamos de fazer. Nem sempre dá, é verdade, e muitas pessoas não tiveram a sorte ou oportunidade para fazer profissionalmente essas coisas que os fazem feliz. Não é o caso do Dane. Ele adora surfar e agradece a todos, no texto, o facto de poder ter o surf como profissão. Mas a verdade é que embora tivesse o surf como profissão, fazê-lo em competição, não era o que o fazia feliz. Pelo menos, fazê-lo a tempo inteiro, não é o que o faz feliz. E visto que todos temos o direito universal à felicidade, ele tem todo o direito a não o querer fazer - mesmo tendo um talento brutal que o faz ser mesmo um dos melhores surfistas do Mundo. Mas tal como ele tem direito a não querer competir, a Quiksilver e todos os seus outros patrocinadores têm o direito a não o querer patrocinar por causa disso. Felizmente para eles - e até certa medida, para nós - não é o caso e o Dane está e vai continuar muito bem patrocinado. Agora, se ele pode finalmente fazer aquilo que o faz feliz e aqueles que à partida o podiam "impedir" ou "dificultar" de fazer isso, não o fazem, quem somos nós para dizer que isto está errado?? Quem somos nós para comparar o suposto contrato milionário às pessoas que se calhar não têm dinheiro para pôr jantar na mesa ao jantar? Quem somos nós para querer que o Dane não seja feliz? Quem somos nós para dizer que a Quiksilver, Vans e Channel Islands estão a tomar decisões erradas? Estas perguntas todas vêm como resposta directa àquilo que o Jake Howard escreveu na ESPN. Quem é que o Howard se acha para poder dizer isto e para achar que é o detentor da verdade absoluta e dar como título à enorme bestialidade que é aquele texto "Descodificando o que o Dane disse"? E não, eu não estou a dizer que o Dane está certo. Estou a dizer apenas que ele e a Quiksilver têm direito a fazer aquilo que querem sem ser questionados por pessoas a quem, manifestamente, não devem nada. Sinceramente, começo a odiar cada vez mais a classe de blogger à qual pertenço. Claro que não sou um Blasphemy Rottmouth ou um Rusty Steele ou um Lewis Samuels que brincam e gozam e opinam com a vida das pessoas, dos surfistas, sem piedade. Mas também tenho a minha - pequena, espero - quota parte de culpa. E, verdade seja dita, se o Howard não é ninguém e escreve na ESPN, muito menos sou eu. Mas se ele tem direito a escrever, também eu tenho e vocês também, nos comentários. Claro que a profissão do Dane acarreta obrigações e ele, muitas vezes e sobretudo ao logo deste ano, falhou em cumpri-las. Ele não é um santo, longe disso. Mas a verdade, novamente, é que ele tem direito a fazer o que o faz feliz. E a Quiksilver tem o direito a largá-lo - o que não fez. E a ASP tem o direito a multá-lo - o que fez. Agora, nem o Jake Howard, nem o Chris Mauro, têm direito a dirigir-se assim a alguém. Não nos podemos esquecer que apesar de serem estrelas do desporto, do Mundo, são pessoas! Mais ainda sendo eles jornalistas, com responsabilidade éticas e morais que os deviam proibir de fazer isso, usando ainda por cima a plataforma onde trabalham como meio de veiculação da sua opinião, mensagem e, parece-me a mim, auto-promoção. Por isso, deixam o Dane fazer aquilo que lhe bem apetecer e lidar com as consequências disso. Ele é livre para o fazer. Deixem o gajo em paz.

E Sr. Howard, o Dane é um fora de série. Ousar dizer que ele daqui a uns tempos está esquecido porque saiu do Tour e por causa da emergência de estrelas como o Gabriel Medina ou o Kolohe Andino, revela uma "curteza" de espírito inqualificável. Ele é um talento comparável apenas a Slater, Curren, Occy. Porventura a carreira destes últimos dois - ou de Slater quando se ausentou do Tour - terminou por terem saído da alçada da ASP?! E o talento de um Jamie O'Brien, Wade Goodall, Clay Marzo? Precisam da ASP para alguma coisa hoje em dia? Deixem o Dane em paz, pá.

6 comentários:

Anónimo disse...

ya tens toda a razão o surf deste gajo é inigualavel para muitos tem um surf completo tanto carves old school como os aereos impressionangtes que ele completa adoro o surf de reynolds e os campeonatos era o meio de divilgação do seu surf
Só espero ja que a competição não é para ele que continue a pôr os videos de freesurf brutais no seu blog boas festas abraço

Pedro Quadros disse...

Olá, esta polémica à volta do Dane é curiosa, porque os vários intervenientes ignoram a característica essencial do Surf Profissional : Exposição nos Media.

Enquanto em praticamente todos os outros desportos profissinais, os atletas ganham a maior parte do dinheiro através dos prêmios de competições, os surfistas profissionais ganham dinheiro pelo numero de calções, t-shirt's e sapatos que conseguem fazer os seus patrocinadores venderem. E para isso é essencial estarem presentes nos Media.

Se o Dane conseguir isso (e o 2º lugar na Surfer's Poll indica isso mesmo), qual é o problema ?

O Dane fez a sua opção (possivelmente sem retorno), mesmo que provavelmente isso implique cortes na sua remuneração - ao fim do dia, a maior montra do Surf profissional ainda é o ASP World Tour.

Diogo Alpendre disse...

Olá a todos,

Pedro, de certa forma, contadisseste-te. Se é essencial estarem nos media, como pode ser a maior montra o World Tour da ASP? Não sei se concordo contigo neste último aspecto. Tens gajos como o Dion Agius, Ozzie Wright, Nathan Fletcher, Jamie O'Brien, Craig Anderson, os Malloy entre outros, que não precisam do Tour. Até tens vários surfistas do circuito Star/Prime que vivem mais da mediatização do que dos resultados. Assim de repente, lembro-me do Yadin Nicol.

E também não sei bem até que ponto é verdade isso dos surfistas profissionais ganharem dinheiro pelo que conseguem fazer os seus patrocinadores vender. Realisticamente, quando olhas para um t-shirt, pensas mesmo: "O Kai Otton usa-a, vou usar também". Se calhar isso funciona com dois ou três, talvez um punhado deles. Mas é um número muito, muito reduzido quando comparado com a quantidade de patrocinados. Se a maior montra do surf profissional é o Tour, como pode alguém como o Bruce Irons ser o que é? Ele no Tour pouco fez! Venceu uma etapa. As pessoas gostam dele e vêem o que ele faz porque o seu talento vê-se mais no freesurf que na competição. O Dane é um talento e já o era antes do Tour. O Tour levou-o mais longe mas a verdade é que ele já era um monstro influenciador antes de entrar para lá..sinceramente, acho que a ASP vai sentir mais falta do Dane que o reverso.

O único risco, a meu ver, é o de o público se fartar dele. E mesmo este, parece-me distante..continuamos todos a admirar o Taj, o J.O.B, o Bruce..

Um abraço aos dois,

Diogo aqui do blog

Pedro Quadros disse...

Olá Diogo, se virmos o artigo da ASL sobre os 50 desportistas australianos melhor pagos, vemos que todos os 4 surfistas presentes correm o WT (por ordem : Taj, Fanning, Parkinson, Julian) - daí a importância essencial do WT para a carreira do surfista.

Evidentemente que alguns "free surfers" ganham razoavelmente, provavelmente até muito bem - caso do Bruce Irons; mas provavelmente serão a exceção, não a regra. Atenção que até julgo que haver surfistas "100% free surfers" é salutar para o nosso desporto, e é uma das suas peculiaridades distintivas.

Porque é que uma marca há-de patrocinar um surfista se não for para este promover essa marca, e assim contribuir para que as vendas dessa marca aumentem ?

Ou para que serve uma marca publicitar numa revista ou num site de surf se não for para vender mais ?

Abr

Castro Pereira disse...

E agora que a ASP voltou atrás da cagada que tinha feito, que falar....
abçs

Diogo Alpendre disse...

Olá a todos novamente,

Sim, isso é verdade, Pedro. Mas achas que foi esse facto que lhes deu o "dinheiro"? Pega no exemplo do Julian. Ele só entrou para o WT este ano e antes ele já era bastante mediático.

Acho que precisamos de distinguir as coisas. Uma coisa é exposição mediática, outra é estar no WT. E uma coisa, é certa, não precisas de estar no WT para ter exposição mediática. Essa estatística de que falas é um mero dado que prova que quem está no WT ganha mais dinheiro, não prova que quem está no WT tem maior exposição. Em breve vou-te enviar um link que te prova isto, só preciso de tempo para que ele seja publicado.

As marcas publicitam para vender mais, sim. Mas novamente, o que tem isso a ver com o surfista que publicitam estar ou não no WT? Dois dos atletas mais mediáticos dos últimos 12 meses, Craig Anderson e Chippa Wilson, nem sequer pensam em entrar no Tour. E repito os exemplos do Bruce Irons, Nathan Fletcher, Dave Rastovich..estes cinco, altamentos mediatizados este ano. Estão no Tour? Não. Estão nas revistas e em anúncios? Sim.

Acho que quanto muito, estares no WT, é uma plataforma mais segura e estável para um surfista estar nos média. MAS, este ano até ao Pipemasters, tinhas sequer pensado no Kieren Perrow? Isto revela que para teres a referida exposição, também tens que te destacar. E olha o Mick Fanning este ano. Que exposição teve?

Castro Pereira, já lá vamos em breve..

Abraços para todos,

Diogo aqui do blog