03/10/2011

Restaurantes

  Uma coisa que sempre me disseram foi que devia viajar. Foi um conselho que chegou até mim vindo de diferentes pessoas, em diferentes contextos e foi uma coisa que sempre tive como objectivo. Cada uma das viagens que fiz teve os seus frutos e conheci bastante gente, fiz alguns contactos, alguns amigos. E agora que fiz algumas viagens, começo a perceber o porquê do conselho de "viajar". Dá-nos perspectiva. As conversas acontecem, os assuntos flutuam, tudo naturalmente. Sendo a minha vida, surf, surf acontece. Com as viagens, vou ganhando perspectiva sobre o surf e queria dar-vos uma palavrinha sobre uma coisa sobre a qual ganhei perspectiva, um dos assuntos mais polémicos da actualidade, o surf aéreo. Tanta coisa para chegar aqui, ao mesmo surf de sempre, não é? Queiram desculpar os desvios de escritor emprestado.

Lembro-me da primeira vez que vi o Kirk Flintoff surfar em competição e da facilidade com que o australiano puxava os seus aéreos reverse a agarrar a prancha desde que descolava até a aterrar. Fiquei muito impressionado nessa primeira vez. Tenho similar lembrança do Jádson. A inversão, o arriscar. Mas tal como eu me impressionei, também vocês e os juízes se impressionaram. Por um aéreo reverse vinha um nove. Garantido. Essa foi a primeira época em que o Jádson os fez e de lá vinham os tais 9. Um ano mais tarde, já eram 8. Depois 7. Hoje são 6 e se forem dois na mesma onda, talvez saia mesmo um 5. Onde ficava impressionado, agora fico aborrecido. Acho que vocês também e uma coisa é certa, também os juízes - salve-se a excepção dos aéreos do tipo "nada a perder", exemplo Kelly Slater 10 em Nova Iorque.

Lembro-me também de em 2005, ano em que comecei a seguir o circuito mundial e a ver os webcasts, ver o Mick Fanning em Snapper's, a começar a fazer a rasgada que hoje em dia é a sua manobra trademark. Incrível. Há umas semana atrás, no Hurley Pro Trestles, vi o Mick Fanning a surfar como ainda não tinha surfado este ano, numa prancha nova (do Kolohe), a fazer aquela mesma rasgada. Incrível. Vocês também acharam e os juízes também.

Lembro-me de ver o Miguel Pupo a competir no mais difícil evento pró júnior do Mundo, em Huntington Beach. Lançava os mais incríveis aéreos e a vitória foi dele. A semana passada vi-o nos Açores, a surfar sem aéreos e a ir buscar highscores aos juízes. Não sei se é um tipo esperto, inteligente. Mas sei que sabe surfar de rail e numa onda em específico, foi buscar um nove e meio aos juízes, só com surf no rail, na borda. Hoje em dia, os aéreos do Miguel Pupo já não me impressionam mas fogo, o "puto" tem uma rasgada de frontside de meter medo.

O presente é algo dúbio. Tal como uns gostam de cozido à portuguesa, outros gostam do faisão em cama de rucula banhado a mel e com aroma a pêssego. Mas sabem uma coisa? O restaurante de maior sucesso é aquele que não se preocupa em rotular-se, apenas faz comida. Só espero que grandes cozinheiros como o Gabriel Medina saibam disso. Afinal de contas, o que significa ter Kelly Slater, Dane Reynolds e Mick Fanning como inspirações e ídolos?

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