01/08/2011

Pró júnior europeu

Os surfistas franceses são barulhentos. Ou sonoros, como preferirem. Se estivesse a escrever em inglês, diria noisy. Os espanhóis também. Mas um bocadinho menos.

Estou sentado num pico a duzentos, talvez trezentos, metros do pico e da área de competição do Billabong Pro Junior Sopelana, evento de uma estrela do circuito pró júnior europeu da ASP que está a decorrer naquela praia do País Basco. Não sei quem é que está na água naquele momento e não consigo ouvir o speaker. Estou e estive a surfar umas esquerdas e direitas bem cheias e moles, meio metro, nas últimas duas horas com um amigo e meia dúzia de miúdas francesas ou espanholas ou bascas com longboards. Também estão na água dois, talvez três surfistas que provavelmente estão a treinar para o pró júnior europeu. Eles apanham as melhores ondas e surfam-nas "no seu total potencial". Às vezes deixam passar uma ou outra ou vem um set com mais de três ondas e finalmente consigo apanhar uma ondas das maiores com a minha 5'8 quad. De resto, sou deixado a competir por ondas médias ao lado das miúdas de longboard.

Estou em Sopelana, Euskadi, a convite de um amigo treinador de surf que está nesta prova a orientar um seu treinando, também meu amigo. Também outro treinando do meu amigo treinador veio na viagem e é com ele que estou a surfar. Treinador e treinando preparam o heat deste último, heat que está quase a chegar, isso sei e tenho o tempo mais ou menos cronometrado para sair da água e ir ver o heat.

Mas de volta ao lineup. Roubo uma esquerda de tamanho médio a um dos tais surfistas que está na água a treinar. A onda era minha, a prioridade era minha, mas o facto de ele estar a treinar e eu apenas a curtir faz com que sinta que o estou a roubar. Um pouco como roubar uma baliza a um guarda-redes durante um treino de penaltys. O take-off é fácil, atraso um pouco para a direita para deixar a onda levantar e reparo que a direita até vai ser melhor e lá vou eu. Quando saio da onda, reparo num grupo de raparigas, sub 18, que está a remar para fora, mesmo ao meu lado. Umas de bikini, outras de lycra, outras de short. Morenas ou loiras, olhos verdes ou azuis, bronzeadas e com um ar saudável. Fico a olhar um pouco tempo de mais e uma delas, com um autocolante da Roxy no nose da prancha, sorri-me. Sorrio de volta e remo lá para fora. Quando elas chegam, começam a falar e remam activamente de um lado para o outro. São francesas e a língua Satre sai-lhes da língua de forma sedutora. Todas elas, algumas mais talentosas que outras, são surfistas profissionais e estão na prova. Pergunto-me se serão mesmo surfistas profissionais. Será que autocolantes nas pranchas, 2000 euros por ano, roupa e fatos grátis e team manager significa que são surfistas profissionais? Não encontro resposta, embora elas façam os eventos pró (de profissional) júnior do circuito europeu. Fica um bocadinho mais difícil de apanhar ondas mas não impossível. É apenas uma questão de vontade.

Passado uma meia hora, acabado de sair de uma esquerda, reparo num novo grupo de surfistas. Pranchas com autocolantes, fatos com logotipos, peito cheio com patrocinadores. Quiksilver, Billabong e talvez um da Rip Curl. Sobretudo da Quiksilver e talvez uns 5 ou 6. Falam entre eles mas sem fazer muito barulho. São franceses, bascos e espanhóis. Falam normalmente mas a atitude, as pranchas com autocolantes, os fatos com logotipos, gritam. Muitos deles estão no circuito pró (de profissional) júnior europeu e pergunto-me, outra vez, se serão surfistas profissionais. São talvez sub 21 e falam alegremente com as raparigas que, naturalmente, distribuem charme, espetam o peito e fazem bottom turns pronunciados. É mais difícil fazer ondas mas a culpa não é deles, a maré encheu muito e já não quebra tão lá fora. Ainda assim, eles apanham várias ondas e fazem os seus cutbacks, batidas. Não dá para fazer aéreos mas eles tentam. Apanho uma esquerda do set que misteriosamente chegou até mim e é minha e sinto os olhos do lineup espetados em mim. Não hesito e apanho-a, ao mesmo tempo que me sinto ligeiramente observado o que acaba por ser intimidante e não quero estragar a onda. Uns quantos pumps, um cutback, reentry para fechar a onda, saio e remo para trás. Ao mesmo tempo, vejo o Vasco Ribeiro, líder do circuito pró júnior europeu, com quem já falei e entrevistei algumas vezes. Não me reconhece ao início, franze os olhos e abre um simpático sorriso: "Pá, estava a pensar, estou em Espanha, não pode ser! Está tudo bem? Andas por cá?". Vai sentar-se no meio do pico e começa a falar com os colegas de equipa da Quiksilver. Só alguns deles surfam verdadeiramente bem (embora sejam patrocinados) e nenhum de forma tão confiante como o português. De repente, o nível sobe. Ele é o alvo a abater e a competição, o Billabong Pro Junior Sopelana, começa com o freesurf, é lá que os egos começam a chocar e que cada um vê como cada qual está a surfar. O Vasco está na água com a prancha com que venceu a última etapa da Liga MEO Prosurf, em Ribeira D'Ilhas. Espero pelo meu amigo de surfada e saímos juntos da água, com estas condições de mar, surfistas dentro de água e três horas de surf, não é preciso continuar.

Chegamos ao pé do treinador e treinando e eles estão a ultimar os últimos pormenores da estratégia do heat, já com o treinando de lycra amarela vestida. O heat, contra outros três surfistas, um dos quais da Quiksilver se bem me lembro, corre-lhe de feição e ele vence. O treinando tem talento, é top 5 nacional sub 16 e não tem patrocinador. Pergunto-me porquê e não chego a nenhuma resposta. O treinando tem mais talento que alguns dos franceses, bascos e espanhóis patrocinados pela Quiksilver (com team manager, fatos, roupa e talvez os 2000 € por ano) e até é mais novo que alguns deles. Pergunto-me porque é que eles têm patrocinador e ele não e novamente não chego a nenhuma resposta. Alguns dos membros da extensa equipa da Quiksilver e Billabong não passam deste round 1 e o treinando, sem patrocinador, passa. Entre os vários surfistas patrocinados que vejo, conto talvez vinte cinco da Quiksilver, quinze da Billabong e talvez dez da Rip Curl, cinco ou seis de outras marcas importantes e um ou outro de outras marcas.

Faço contas aos surfistas patrocinados por estas marcas em Portugal. Mesmo fazendo proporções com a população e coisas do género, os números estão assustadora e preocupantemente longe destes números. Basicamente, quase todos os júniores portugueses que são patrocinados estão neste evento e são menos de vinte surfistas. Ao todo. De todas as marcas. Pergunto-me porquê e não chego a nenhuma resposta. Sem dúvida que há talento em Portugal e ainda assim não percebo porque não há mais patrocinados. Pergunto-me porque não se arrisca mais e se aposta em mais surfistas. Com certeza a Quiksilver não está à espera que todos os vinte cinco patrocinados franceses, espanhóis ou bascos se tornem excelentes surfistas. Talvez um ou dois ou três. Mas vinte cinco têm potencial e então dá-lhes asas e meios para voarem até onde der, vendo depois então se têm o talento necessário para continuar patrocinados. "Prospecção de talento" explica-me o meu amigo treinador de surf. Pergunto-me porque não fazem o mesmo em Portugal e continuo a ver a competição, round 1 e 2, a decorrer com alguns surfistas com talento, outros nem por isso, quase todos patrocinados. O meu amigo que está na competição não é patrocinado. O talentoso australiano James Wood, que também está aqui e já foi patrocinado pela Billabong na Austrália, também não mas esse é outro problema.

Fico a pensar na questão dos surfistas (não) patrocinados portugueses.

4 comentários:

Pedro Quadros disse...

Olá Diogo, curiosamente eu penso o inverso - ao ver a quantidade de surfistas portugueses patrocinados (ou apoiados...), particularmente os mais novos, pergunto-me se não serão demais, e que efetivo retorno é que dão aos seus patrocinadores.

Anónimo disse...

Caro Pedro Quadros, que quantidade de surfistas patrocinados em excesso "particularmente os mais novos" são esses?

Na tua opinião, não se deve apostar na formação?
Que tipo de retorno é que estás a falar?

Pedro Quadros disse...

Olá, o Surf é um desporto peculiar, no sentido em que os atletas profissionais vivem mais com o que ganham com os patrocínios do que com as premiações dos eventos em que participam (basta ver as diferenças abissais entre os prize-money's do Surf e os do Golfe e do Tênis). O que no fim significa que um Surfista vale tanto quanto o numero de calções, t-shirt's, etc que a sua imagem (distribuida e amplificada pelos Media) consegue vender.

Quando uma marca patrocina um atleta, na realidade está a fazer um investimento que terá de dar retorno, mais tarde ou mais cedo.
E esse investimento também pode (deve)ser realizado em formação tecnica e psicologica - ver o que as grandes marcas fazem.

Se vou nomear alguém - vou fazê-lo pela positiva, e realçar o Vasco Ribeiro, que consegue aliar um excelente desempenho técnico e competitiva a uma excelente presença (o sorriso fácil, a simpatia e descontração). O Vasco é o jovem surfista que qualquer patrocinador quer ter no seu Team, e não é difícil prever que terá uma excelente carreira como surfista profissional, particularmente em termos de popularidade tanto dentro como fora do meio do Surf.

Anónimo disse...

Que o Vasco deve ser patrocinado ninguém tem duvidas, ele é uma certeza no surf nacional, mal de nós se estivéssemos a discutir se o Vasco tem ou não perfil para ter patrocínios.

A questão apresentada refere-se aos vários surfistas juniores e groms Portugueses que ainda não chegaram ao nível de ser certeza, mas que estão a batalhar para chegar a esse nível sem patrocínios.

Observando o modelo Francês, as marcas gostam de ter fortes e massivas presenças nas praias, nas provas, nos line ups. Só com isso já ganham retorno, resultando numa forte presença de logótipos da sua marca em metade das pranchas e do surfwear que circula pela areia, sem grande custo e ainda por cima com hipóteses de saírem dali bons atletas. Esses atletas são montras de exposição das marcas e ao mesmo tempo são apostas para o futuro.
Nem todos serão certezas, uns vão naturalmente dando lugar a outros, mas se houver um bom universo de talentos e trabalhadores angariados… quem sabe quantos mais Maxime's, Aliotti's, Lacomare's puderam sair dali.
É só ver o ranking Europeu Star...os 5 primeiros lugares são Franceses.

É possível fazer diferente, mas temos de ser mais open minded, saber o que se faz lá fora. Criticas são necessárias mas só se forem para apresentar boas ideias e não para bater só por bater. Podemos ter mais surfistas a dar carta lá fora, precisamos apenas de renovar o sistema.