30/08/2011

Slater vence em Teahupoo

"Vocês estão surpreendidos? Se sim, ou não leram o nosso diário do primeiro dia de competição (ver link) ou não seguiram o evento com a devida atenção. Mas já lá vamos. Primeiro vamos tratar de outros factos:
 
- Brett Simspon: A sério? O regular duas vezes campeão do US Open em HB chegou aos quartos de final em Teahupoo perfeito, eliminando no caminho, justamente!, Joel Parkinson (round 2, 13.34x10.33), Damien Hobgood (round 3, 17.26x16.70) e Freddy Patacchia (round 5, 17.33x14.00)? Será que agora vamos ter que levar a sério Simpo neste tipo de condições? Dizem os rumores que o resultado se deve ao facto de Brett andar a viajar com os manos Hobgood que lhe deram umas dicas de como surfar em Chopes..e parecem ter resultado!

- Matt Wilkinson: o nada discreto Wilko mostrou em Teahupoo que é mais do que um surfista de um só truque e mesmo estando desconfortável com o tamanho do mar e condições, consegue dar espectáculo, fazendo mesmo um 10 espectacular.

 - Jeremy Flores: nunca mais um menino, para sempre um homem. Se o facto de ser Pipemaster surpreendia algumas pessoas, a performance que teve em Teahupoo, e que lhe valeu o prémio "Andy Irons Forever", deve ter surpreendido muitas mais. Mas a verdade é que o jovem nascido na Reunião sempre gostou de mar pesado e tubos quadrados. Agora que conseguia levar esse amor e à vontade do freesurf para a competição, essa foi impressionantes. Resultado, duas notas 10, um 20 no total nos quartos-de-final, o 6º da história do surf competitivo.

- Josh Kerr: diz-me uma coisa, tu que estás a ler isto: viste o filme do Kerr, "Kerrazy Kronicles"? Se sim, o 3º lugar deste rapaz da Gold Coast não te surpreende. Se não, vai ver e vais perceber que este resultado não é por acaso. Ele gosta, muito, de mar pesado.

- Travis Logie: o herói do povo! The Log! A história do campeonato! O indestrutível! A força bruta! Chegou ao Tahiti sem pranchas e após uma logística por demais complicada, após horas e horas de vôo, vindo de França. Surfou com pranchas do Alain Riou e dos quartos para a frente, com pranchas do nosso Tiago, que encaixaram debaixo dos seus pés maginficamente. Depois de quedas espalhafatosas, Travis foi ao melhor de si buscar uma performance muito boa nos quartos-de-final. Por um heat não se qualificou para o Tour a seguir a 2012, era só chegar à final. Mas perdeu para Owen nas meias. Mas sai do Tahiti com a confiança redobrada e agora..cuidado com ele.

- Owen Wright: alguém escrevia na Internet que Owen se acha um verdadeiro candidato ao título mundial e que tem sentido cada derrota como uma ofensa pessoal. Depois de ter terminado esta etapa em 2º e ter mantido Kelly em maus lençóis durante uma boa parte da final, quem pode duvidar destes sentimentos de Owen? Já o dissemos e voltamos a repetir, é um futuro campeão do Mundo e a grande esperança da tribo de pé direito à frente.

- Kelly Slater: ele tinha feito um pacto com o Diabo. E ele nunca na vida ia deixar esta hipótese de voltar ao título mundial, passar..nunca, nunca, nunca. E venceu, bem, fazendo linhas únicas e altas, dropando mais dentro que todos (e só equiparado a Owen), escolhendo sem medo as de oeste, explodindo na altura certa, depois de construir uma casa ao longo de toda a prova. Ao mesmo tempo, ia destruindo a cabeça de cada um dos seus adversários, um a um, um a um.. E venceu, claro! E está de volta a número 1..e 1 mais 1, 11, claro.

Saibam mais sobre o evento em http://billabongpro.com/tahiti11/ "

Extraído daqui.

21/08/2011

Heat analyzer

É brutal! Já viram bem? Carreguem aqui e dêem uma olhada.

Já viram?

Okay, então vamos falar disto. Antes de mais nada, o que acharam?
Eu curti "pa caraças"! Esta inovação da Billabong para o evento do Tahiti é, finalmente, uma daquelas nerdices que é...útil. Para um nerd do surf como eu, poder ter um leque de opções como aquilo permite, é perto de ideal. Em primeiro lugar, posso ver o heat todo, do princípio ao fim. Em segundo, posso escolher o que quero ver, ondas contadas, ondas não contadas, replays, wipeouts, rever as entrevistas, tudo. É fácil, instintivo e "user friendly". Parece uma coisa que a Apple faria se estivesse metida com os webcasts de eventos de surf. O visor grande, pá, é fixe. Um grande "props" à Billabong por terem feito isto..e espero que o mantenham em todos os eventos da Billabong no futuro, pelo menos os do WT. E, quem sabe, os Prime...como o do Açores?
Não parece uma plataforma complexa mas como tenho aprendido nos vários webcasts que já fiz, normalmente o simples tem muito trabalho e tecnologia por trás, o que significa que não deve ser propriamente barato ter isto em todas as etapas. Ainda assim, se a Billabong o faz numa etapa tão distante como o Tahiti...também deve conseguir fazer no Havai, nos Açores e até no Rio e J-Bay, para o ano. É esperar para ver.


Digam de vossa justiça, o que acharam?

01/08/2011

Pró júnior europeu

Os surfistas franceses são barulhentos. Ou sonoros, como preferirem. Se estivesse a escrever em inglês, diria noisy. Os espanhóis também. Mas um bocadinho menos.

Estou sentado num pico a duzentos, talvez trezentos, metros do pico e da área de competição do Billabong Pro Junior Sopelana, evento de uma estrela do circuito pró júnior europeu da ASP que está a decorrer naquela praia do País Basco. Não sei quem é que está na água naquele momento e não consigo ouvir o speaker. Estou e estive a surfar umas esquerdas e direitas bem cheias e moles, meio metro, nas últimas duas horas com um amigo e meia dúzia de miúdas francesas ou espanholas ou bascas com longboards. Também estão na água dois, talvez três surfistas que provavelmente estão a treinar para o pró júnior europeu. Eles apanham as melhores ondas e surfam-nas "no seu total potencial". Às vezes deixam passar uma ou outra ou vem um set com mais de três ondas e finalmente consigo apanhar uma ondas das maiores com a minha 5'8 quad. De resto, sou deixado a competir por ondas médias ao lado das miúdas de longboard.

Estou em Sopelana, Euskadi, a convite de um amigo treinador de surf que está nesta prova a orientar um seu treinando, também meu amigo. Também outro treinando do meu amigo treinador veio na viagem e é com ele que estou a surfar. Treinador e treinando preparam o heat deste último, heat que está quase a chegar, isso sei e tenho o tempo mais ou menos cronometrado para sair da água e ir ver o heat.

Mas de volta ao lineup. Roubo uma esquerda de tamanho médio a um dos tais surfistas que está na água a treinar. A onda era minha, a prioridade era minha, mas o facto de ele estar a treinar e eu apenas a curtir faz com que sinta que o estou a roubar. Um pouco como roubar uma baliza a um guarda-redes durante um treino de penaltys. O take-off é fácil, atraso um pouco para a direita para deixar a onda levantar e reparo que a direita até vai ser melhor e lá vou eu. Quando saio da onda, reparo num grupo de raparigas, sub 18, que está a remar para fora, mesmo ao meu lado. Umas de bikini, outras de lycra, outras de short. Morenas ou loiras, olhos verdes ou azuis, bronzeadas e com um ar saudável. Fico a olhar um pouco tempo de mais e uma delas, com um autocolante da Roxy no nose da prancha, sorri-me. Sorrio de volta e remo lá para fora. Quando elas chegam, começam a falar e remam activamente de um lado para o outro. São francesas e a língua Satre sai-lhes da língua de forma sedutora. Todas elas, algumas mais talentosas que outras, são surfistas profissionais e estão na prova. Pergunto-me se serão mesmo surfistas profissionais. Será que autocolantes nas pranchas, 2000 euros por ano, roupa e fatos grátis e team manager significa que são surfistas profissionais? Não encontro resposta, embora elas façam os eventos pró (de profissional) júnior do circuito europeu. Fica um bocadinho mais difícil de apanhar ondas mas não impossível. É apenas uma questão de vontade.

Passado uma meia hora, acabado de sair de uma esquerda, reparo num novo grupo de surfistas. Pranchas com autocolantes, fatos com logotipos, peito cheio com patrocinadores. Quiksilver, Billabong e talvez um da Rip Curl. Sobretudo da Quiksilver e talvez uns 5 ou 6. Falam entre eles mas sem fazer muito barulho. São franceses, bascos e espanhóis. Falam normalmente mas a atitude, as pranchas com autocolantes, os fatos com logotipos, gritam. Muitos deles estão no circuito pró (de profissional) júnior europeu e pergunto-me, outra vez, se serão surfistas profissionais. São talvez sub 21 e falam alegremente com as raparigas que, naturalmente, distribuem charme, espetam o peito e fazem bottom turns pronunciados. É mais difícil fazer ondas mas a culpa não é deles, a maré encheu muito e já não quebra tão lá fora. Ainda assim, eles apanham várias ondas e fazem os seus cutbacks, batidas. Não dá para fazer aéreos mas eles tentam. Apanho uma esquerda do set que misteriosamente chegou até mim e é minha e sinto os olhos do lineup espetados em mim. Não hesito e apanho-a, ao mesmo tempo que me sinto ligeiramente observado o que acaba por ser intimidante e não quero estragar a onda. Uns quantos pumps, um cutback, reentry para fechar a onda, saio e remo para trás. Ao mesmo tempo, vejo o Vasco Ribeiro, líder do circuito pró júnior europeu, com quem já falei e entrevistei algumas vezes. Não me reconhece ao início, franze os olhos e abre um simpático sorriso: "Pá, estava a pensar, estou em Espanha, não pode ser! Está tudo bem? Andas por cá?". Vai sentar-se no meio do pico e começa a falar com os colegas de equipa da Quiksilver. Só alguns deles surfam verdadeiramente bem (embora sejam patrocinados) e nenhum de forma tão confiante como o português. De repente, o nível sobe. Ele é o alvo a abater e a competição, o Billabong Pro Junior Sopelana, começa com o freesurf, é lá que os egos começam a chocar e que cada um vê como cada qual está a surfar. O Vasco está na água com a prancha com que venceu a última etapa da Liga MEO Prosurf, em Ribeira D'Ilhas. Espero pelo meu amigo de surfada e saímos juntos da água, com estas condições de mar, surfistas dentro de água e três horas de surf, não é preciso continuar.

Chegamos ao pé do treinador e treinando e eles estão a ultimar os últimos pormenores da estratégia do heat, já com o treinando de lycra amarela vestida. O heat, contra outros três surfistas, um dos quais da Quiksilver se bem me lembro, corre-lhe de feição e ele vence. O treinando tem talento, é top 5 nacional sub 16 e não tem patrocinador. Pergunto-me porquê e não chego a nenhuma resposta. O treinando tem mais talento que alguns dos franceses, bascos e espanhóis patrocinados pela Quiksilver (com team manager, fatos, roupa e talvez os 2000 € por ano) e até é mais novo que alguns deles. Pergunto-me porque é que eles têm patrocinador e ele não e novamente não chego a nenhuma resposta. Alguns dos membros da extensa equipa da Quiksilver e Billabong não passam deste round 1 e o treinando, sem patrocinador, passa. Entre os vários surfistas patrocinados que vejo, conto talvez vinte cinco da Quiksilver, quinze da Billabong e talvez dez da Rip Curl, cinco ou seis de outras marcas importantes e um ou outro de outras marcas.

Faço contas aos surfistas patrocinados por estas marcas em Portugal. Mesmo fazendo proporções com a população e coisas do género, os números estão assustadora e preocupantemente longe destes números. Basicamente, quase todos os júniores portugueses que são patrocinados estão neste evento e são menos de vinte surfistas. Ao todo. De todas as marcas. Pergunto-me porquê e não chego a nenhuma resposta. Sem dúvida que há talento em Portugal e ainda assim não percebo porque não há mais patrocinados. Pergunto-me porque não se arrisca mais e se aposta em mais surfistas. Com certeza a Quiksilver não está à espera que todos os vinte cinco patrocinados franceses, espanhóis ou bascos se tornem excelentes surfistas. Talvez um ou dois ou três. Mas vinte cinco têm potencial e então dá-lhes asas e meios para voarem até onde der, vendo depois então se têm o talento necessário para continuar patrocinados. "Prospecção de talento" explica-me o meu amigo treinador de surf. Pergunto-me porque não fazem o mesmo em Portugal e continuo a ver a competição, round 1 e 2, a decorrer com alguns surfistas com talento, outros nem por isso, quase todos patrocinados. O meu amigo que está na competição não é patrocinado. O talentoso australiano James Wood, que também está aqui e já foi patrocinado pela Billabong na Austrália, também não mas esse é outro problema.

Fico a pensar na questão dos surfistas (não) patrocinados portugueses.

Nah, eu punha era o dinheiro neste puto

Também punha o meu dinheiro neste miúdo


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