07/12/2010

Havai, wildcards locais, Julian Wilson e outras politiquices havaianas - crónica, opinião, reflexão, linchamento

(antes de mais nada, peço desculpa pela extensão deste texto. É um assunto sensível para mim e como tal, só paro quando paro. Acredito que este post  é interessante, pertinente e actual. Espero e acredito que também o vão achar assim.) 

Há quase dois anos atrás (faltam dois dias..), inaugurava este blog. O que me motivou a começá-lo foi o Pipeline Masters e toda a controvérsia relativa aos wildcards e "Pipe Specialists" que entram no evento. Na altura escrevi que isto era estúpido - os 16 especialistas (com a mudança para 32 surfistas no Tour, são agora, epnas, 8). Continuo a concordar com tudo o que escrevi na altura. Se querem ter 8 especialistas/locais de Pipe no evento, pá, têm que pôr 8 especialistas locais em todas as outras ondas do Tour. E não me acusem de estar a desrespeitar o Havai e os seus locais. Um havaiano é tão local de Pipeline como um português de Supertubos, um brasileiro de Santa Catarina, um sul-africano de J-Bay e etc etc etc. O surf é um desporto profissional (ou ambiciona a ser..) e como tal não pode permitir este tipo de coisas. Vêem mais 8 pilotos entrar numa qualquer corrida de F1 (a F1 e o surf são muitas vezes termos de comparação) simplesmente porque são do sítio da prova?

Mas 8? Simplesmente porque são de lá e porque ficam privados da onda durante uns dias? Então e os locais das outras ondas? Não ficam também privados? Sinceramente, acho que este "wildcard" que se dá é para aqueles meninos terem os seus 15 minutos de fama sem terem que percorrer um caminho tortuoso e difícil, o WQS, para se qualificarem para o Tour e assim poderem surfar o Pipeline Masters legitimamente. Mas argumentam vocês: "Ah, uns deles tiveram que se qualificar via o 5* da Volcom em Pipe no início do ano". Deve ser muito difícil fazer um evento por ano, numa das melhores ondas do Mundo e que conhecem como ninguém, para depois se qualificarem para o mais respeitado evento do Tour, não deve? Ui, tão difícil.

Os surfistas que legitimamente se qualificaram para o Tour, alguns com carreiras e permanência no Tour em risco, não só vão com toda esta pressão para Pipe como ainda têm que enfrentar alguns dos melhores no mundo naquela onda e que nada têm a perder para além de um bocadinho de pele roubado pelos corais de Pipe. Vamos lá falar de justiça, não é?

Ora, até ao momento, temos 12 havaianos qualificados para o evento sem estarem no WCT. Diz a ASP que a atribuição dos wildcards foi baseada nas prestação de surfistas havaianos (e só havaianos!) no Volcom Pipe Pro, na Van’s Tripe Crown e nos rankings das competições locais regionais (!!!).

Via Volcom Pipe Pro, qualificaram-se: Kamalei Alexander, Clay Marzo, Bruce Irons, John Florence, Kiron Jabour, Ian Walsh, Danny Fuller e Jamie O'Brien. Não importa que alguns destes (Bruce, Marzo e Kamalei) nem sequer tenham passado dos quartos de final no evento, enquanto os australianos Anthony Walsh e Mark Mathews tenham chegado à final, terminando em 2º e 3º, respectivamente.

No evento estão também Shane Dorian e Kalani Chapman. Estes dois, explica Júlio Adler, são wildcards convidados pelos patrocinadores. Dorian pela Billabong, Chapman pela Vans.

Via Vans Triple Crown of Surfing e após terem acabado as duas primeiras "Jóias", estão no evento Granger Larsen por ser o havaiano não qualificado para o Pipeline Masters mais bem posicionado no One World Ranking (!!!) e Joel Centeio por ser o havaiano com maiores possibilidades de ganhar a VTCS, a seguir a Granger, já qualificado pelos motivos acima descritos. 

De fora fica o australiano Julian Wilson, já anunciado o VTCS Rookie Of The Year, que alcançou o 3º lugar em Haleiwa e o 2º em Sunset e é o surfista com mais possibilidades de roubar a "Coroa" a Parko (que lidera o ranking com apenas mais 26 pontos que Wilson, o que, só ao estar em Pipe e Wilson não, lhe dá quase o título de bandeja e chuta Wilson para fora da corrida). Para além disto, Julian (mesmo só correndo meio ano de WQS), está na bolha para se qualificar para o WT de 2011 - e ao estar fora de Pipe, vê a sua qualificação muito difícil. 

E agora digam-me quem merece mais, competitivamente falando, estar em Pipeline?

Em mais uma prova da falta de profissionalismo da ASP e da WPS, estas já tinham atribuído os seus dois "ASP Wildcards" para a participação no Pipeline Masters, antes sequer de Sunset terminar. Esses dois "ASP Wildcards", vão para Rob Machado e Heitor Alves. De fora, sem "ASP Wildcard" e a precisar mais do que qualquer um deles (Rob participa por ser uma lenda e o único Pipe Masters fora da lista (?), Heitor já está qualificado para 2011 e este wildcard é uma prenda por isso mesmo), fica Julian Wilson. Ora a ASP/WPS, sabendo perfeitamente que o Havai é complicado em termos de wildcards, não podiam ter esperado até ao fim das duas primeiras jóias para dar o "wildcard", evitando esta polémica, altamente falada nos media, redes sociais e blogs, situação com Julian Wilson? Para além de que a ASP e WPS não pode dar prendas deste tipo, muito menos no Havai e no contexto competitivo das ilhas. Diz, bem, Randy Rarick, Director Técnico da VTCS, "They jumped the gun a bit and it would have been nice to have them wait like the Triple Crown did, to see the final ratings after Sunset. That would have been the only way Julian could have gotten into the event — via the ASP — since all the Hawaii slots had been allocated.”

Vamos ver agora se Julian Wilson vai entrar ou não. Shea Lopez, comentador da Surfer Mag, disse no Twitter que talvez Rob Machado cedesse o seu wildcard a Julian: "Maybe @Rob_Machado will giv his spot. He’s a nice guy". Se me permitem, somos todos bons rapazes mas no fim é o que se vê. Sinceramente, duvido que o Machado ceda o seu wildcard

Ainda nesta questão toda, falta falar do Raoni. Mas aí é fácil. O ranking da VTCS é o seguinte: 1- Parko com 8557 pontos; 2 - Julian Wilson com 8531 pontos; Raoni com 7657 pontos; Joel Centeio com 6417 pontos; Granger Larsen com 6398 pontos. Recuperando tudo o que foi dito para trás: estão no evento Granger, Joel, Heitor e Machado. Deviam estar, para uma luta justa pela Triple Crown, Granger, Joel, Raoni e Julian.


E agora ASP, o que vais fazer hoje à noite? Nada, não é?


P.S. Em situação normal, a ASP só teria uma vaga por atribuir. Com a trágica morte de Andy Irons, ficou com duas vagas e daí os dois "ASP Wildcard's"


P.P.S. Para evitar ferir sensibilidades, defendo o Julian em vez do Raoni porque o australiano tem mais hipóteses de levar a "Coroa" que o brasileiro. A situação ideal, obviamente, seria entrarem Julian e Raoni em vez de Heitor e Machado.


P.P.P.S. Saibam mais sobre todas as questões aqui abordadas neste post da Surfing Magazine.

11 comentários:

João Afonso disse...

Gostei do texto, é um assunto pertinente, realmente este rebaixar por parte da ASP em relação ao havai n me entra na cabeça. Será que ninguém percebe que o havai precisa mais da asp do que a asp do havai. Por mim, o havai deixaria de ser uma etapa do wt enquanto as regras n mudassem e dps queria vê-los a disputar a triple crown e o pipeline masters só com havaianos e sem os atletas do wt.

Anónimo disse...

Obrigado Diogo! Belas explicações e opiniões. Vamos ver o que fazem..se é que fazem algo!

Acrescento mais um dado.. o Chris Davidson lesionou-se num joelho..será que fica uma vaga liberta?

Abraço

Pina

Diogo Alpendre disse...

É isso mesmo João. 100% de acordo.

Pina, muito obrigado pela tua informação. Fui ao FB do Davo e confirma-se, embora ainda não seja certo que está fora de Pipe. Sem dúvida que abre uma vaga para o Julian.

Abraço e muito obrigado,

Diogo aqui do blog

Anónimo disse...

Obrigado eu. Enjoy Pipe.

Grande Abraço

Pina

Rodrigo Osborne disse...

Belo post Diogo!!! No ponto exato, como sempre... Forte abraço,
Rodrigo

David Prescott disse...

Excelente post Diogo. A solucao para esta trapalhada era trazer de volta os trials, tinham um ou dois dias so para os locais q ficavam felizes e atribuiam justamente os wildcards aos finalistas, alem disso eram mais dois dias para os patrocinadores e publico. A situacao do Julian deixo para a ASP ficar a reflectir... Quanto ao Granger, seria mt mais justo um wildcard para o rookie do ano da Triple Crown (Julian) em vez de dar a vaga ao melhor Havaiano na Triple Crown fora do evento de Pipe, mais uma trapalhada... Na verdade todos os q tem poder para decidir estao la no Havai agora mesmo, todos sao surfistas e todos gostam de surfar aquelas ondas e querem la voltar todos os anos, se para isso tiverem q baixar as calcinhas aos locais eles baixam, podes crer q baixam. Tu nao baixavas? Eu baixava! Ia doer mas baixava!

NL disse...

Entretanto, o Chris Davidson está de facto alinhavado para o segundo Round Heat #1, e sem sinais do Julian Wilson. Com isso a Billabong assegura a vitória da Triple Crown ao seu atleta, Joel Parkinson.

Mas, como em caso de faltar alguém, entram uns surfistas ao acaso, quase sempre havaianos, pode ser que isto ainda dê umas voltas. É que não é só a Triple Crown - a qualificação para o ano seguinte também está em causa. E os pontos do Pipe valem muito mais do que as etapas fora do WT. E não haver qualquer hipótese de um atleta entrar na prova, por mais que prove o seu valor em ondas hawaianas, distorce em muito a justiça das qualificações. Até aceito as excepções, mas em todas as provas por igual. Ou então, o Hawai passa a ser algo como o Master de Ténis: As regras são diferentes, até conta para o ranking, mas os critérios de participação são iguais e uniformes para todos.

Como diz o Shaun Tomson - Forget the bros, get the pros!

Sapos Xoros e After Eights disse...

Como eu gosto do teu blog!
Obrigada, Informações preciosas e opiniões pertinentes e inteligentes!

Diogo Alpendre disse...

Olá a todos! É sempre bom ver tanta participação em posts aqui do blog! Muito obrigado!

@Rodrigo: Obrigado Rodrigo! A tua opinião conta para mim! Abraço

@David: Bem vindo aos comentários aqui do blog! Eu acho que soluções há muitas, o problemas é os havaianos aceitarem-nas. Se bem que não duvido que haja muita boa gente na organização, gente que até está insatisfeita com isto. Isso que dizes do Granger faz todo o sentido, a questão é que no Havai, como sabemos, têm que ser privilegiados os havaianos..
Esse é o problema, somos todos surfistas, apaixonados por ondas e deslumbrados pelo Havai e todos as queremos surfar. Mas isso é freesurf. Agora uma associação como a ASP, que quer ser levada a sério, não pode permitir este tipo de coisa ao nível do seu principal campeonato..

@NL: Exacto. O Davo, entretanto, não entrou na água e deu o seu lugar ao Dean Morrison. Foi exactamente isso que a Billabong fez, dar a vitória ao Parko. Tudo bem, ele tem tido uns anos difíceis.
Tenho que discordar de uma coisa que dizes, não são surfistas ao acaso que entram. São surfistas com "wildcards" só tidos em conta e usados no Havai, o que é altamente injusto. O Havaí é injusto, o que se há de fazer?

@Sapos Xoros e After Eights: Muito obrigado! A sério!

A todos, obrigado pelos vossos comentários e "keep them coming!"

Diogo aqui do blog

Rodrigo Osborne disse...

Caro Diogo,
participar aqui do blog,é um grande prazer , e uma enorme oportunidade de enriquecer conhecimentos.
Muito bom, parabéns
R.O

Pedro disse...

Alô Diogo,

Bom post, muito bem analisada a questão do Hawaii.
Saltou-me à memoria um video (acho que o vi no teu blog) de um local de Teahupoo a exigir o mesmo tratamento para o evento no Tahiti, mas foram os únicos que reagiram nesse sentido.

Abrc