02/05/2009

Surf Portugal vs Onfire Surfmag

(não se assustem com o tamanho do post, é de fácil leitura...)

Talvez uma das discussões mais pertinentes e talvez um pouco tabu do surf português é a que envolve as duas revistas que dominam o mercado jornalístico surfistico português, a Surf Portugal e a Onfire Surfmag. Qual a mais irreverente? Qual a melhor em fotografia? Qual a melhor em reportagens? Qual a que cobre melhor os eventos internacionais e nacionais? Qual delas tem secções mais interessantes? Qual a mais original? E, sobretudo, qual a melhor?
É uma discussão importante e que a meu ver não deve ser esquecida, na medida em que, uma das maneiras das coisas evoluirem e melhorarem é através da crítica constructiva e é isso que vou procurar fazer. Não sou adepto da crítica barata nem procuro publicidade com ploémicazinhas que não fazem andar nem deixam andar.

A meu ver e quero sublinhar isto, esta é a minha opinião, penso que o mercado de revistas de Surf em Portugal podia ser bastante melhor. Isto porque as duas revistas, para as potencialidades que o mercado do surf aparente ter, podiam fazer muito mais. Ora passemos a uma análise mais detalhada :
Pensando em crónicas e rubricas de cronistas, a Surf Portugal leva claramente vantagem, com nomes como Miguel Ruivo, Júlio Adler e Pedro Adão e Silva a escrever. A Onfire nem está muito focada neste tipo de "jornalismo", pelo que não apresenta este tipo de texto e, portanto, nada tenho a apontar.

No que toca à originalidade das crónicas, a Surf Portugal destaca-se. Só para dar um exemplo, há algo na escrita do Gonçalo Cadilhe que me faz querer ter a vida dele, ser viajante "profissional" e me faz sonhar com aqueles lugares aparentemente paradisiacos que ele visita.

(Gonçalo Cadilhe numa das suas viagens)

Nas reportagens, a Surf Portugal de vez em quando apresenta umas reportagens feitas de raiz bastante interessantes. Contudo, tenho vindo a descobrir que muitas das outras reportagens são "cópias/traduções/adaptações" da Surfer e Transworld Surf americana, o que me desilude pois penso que não há necessidade de fazer isso. E para provar que não existe essa necessidade, existe a Onfire Surfmag (que talvez por ser bimestral) consegue sempre fazer umas reportagens nacionais, seja com alguns dos melhores juniores portugueses (como acontece na última edição, Março-Abril) seja com uma entrevista em jeito de reportagem (ou vice-versa) à dupla de treinadores Raimundo-Telmo na edição de Março-Abril de 2008, que são muito originais e divertidas e permitem ao leitor alguma distracção mais light sem pretensões filosóficas ou qualquer outra coisa muito pseudo. Nisto a Onfire ganha muitos, muitos pontos. A Onfire ganha também pontos com umas pequenas rubricas, como a dos pequenos perfis de jovens surfistas "Checkout", pequenas entrevistas "DNA, últimas palavras" e algumas trick tips numa rubrica chamada "Slowmotion" que me parece que acabou (o que é pena). Ao que a Surf Portugal responde, bem, com as rubricas "Take Off", "Agueiro", "Quando eu for grande..", "Man-on-man" e até o "Livro de Estilo" mas o choque das cópias-traduções é demasiado vivo.. É um empate.
A nova rúbrica da Onfire Surfmag chamada "Destinos" (obrigado pela correcção) também valorizou esta revista. Por outro lado e apesar das crónicas de Gonçalo Cadilhe darem esse plano de viagens, tenho pena que a Surf Portugal tenha há já algum tempo perdido uma rúbrica chamada "Na rota das ondas" que aconselhava viagens e dava algum know-how para as fazer (talvez um pouco ao estilo da Surfer....).
Na escrita e a meu ver, a Surf Portugal apresenta uma boa escrita, clássica, fria (no bom sentido) e muito bem trabalhada o que às vezes dá um peso extra aos seus textos (quer para o bom, quer para o mau) e que faz da revista um verdadeiro monumento do surf português e um valor seguro para qualquer novo-surfista ou novo-interessado em saber mais sobre o surf nacional. A Onfire Surfmag, apresenta uma escrita divertida, incoformada e descomplexada, irreverente e jovem, pensada no seu principal público-alvo.
Relacionado com o surf mas não directamente, gosto que (e de acordo com o apresentado nas últimas edições das duas revistas em análise) ambas tenham passatemos e giveaways, recomendações e apresentações de novos produtos de surf e relacionados, espaços para as cartas dos leitores, novos lançamentos musicais e novos dvds e livros.

Marcelo D2 é o entrevistado musical desta edição da Surf Portugal

E agora vamos a um ponto crucial desta análise, a cobertura dos eventos de surf. Há Onfire SurfMag, nem se pode pedir muito visto que é uma revista bimensal e a maior parte das coberturas vão estar desactualizadas na altura da publicação da revista (o que a Onfire compensa com o seu site...mas já lá vamos...). A Surf Portugal, visto que é uma revista mensal, já podia fazer uma cobertura melhor, contudo, não o faz e não diz nada que o leitor já não tenha visto ou lido consultando o site dos eventos ou a cobertura dada por sites como o Surftotal, a FPS, o Beachcam e até alguns blogs amadores. O que é pena visto que a Surf Portugal tem bons credenciais para poder chegar e até mesmo contar algumas histórias de backstage, pelo menos dos eventos de surf em Portugal e assim enriquecer as suas coberturas para além de satisfazer os seus leitores.

Em termos de fotografia, nada a dizer, os fotógrafos são basicamente os mesmos e a qualidade é bastante boa em ambas as revistas.

Uma coisa muito boa que a Onfire tem, é a Girlz que se foca totalmente no surf feminino, apresentando visões femininas sobre o surf, algo que falta completamente à Surf Portugal.


Em termos de grafismo da revista, ou seja, o seu aspecto exterior, gosto do recente make-over da Surf Portugal que a valorizou bastante e a tornou ainda mais atractiva. A Onfire, está muito bem encaminhada e está cada vez melhor no seu aspecto gráfico e design, embora ainda longe da Surf Portugal. No fim de contas, a Surf Portugal é aquela revista clássica, a mais antiga e, portanto, um bocado rendida aos nomes do costume, nas ondas do costume, com os textos do costume, o que às vezes a faz um pouco aborrecida. Contudo, é sempre um valor seguro e uma revista obrigatória a qualquer surfista. A Onfire é uma boa tentativa de acrescentar alguma irreverência e tal e até acho que está a caminho disso, apresentando um grafismo jovem e original em Portugal, para além de textos muito bem dispostos e bem humorados.

Tinha também pensado em analisar os sites de ambas as revistas mas este post já está a ficar com dimensões monumentais pelo que irá aparecer aqui no blog no decurso da semana que aí vem, podem, então, ficar à espera.


Em baixo, as últimas edições das revistas em análise !

9 comentários:

Anónimo disse...

Pois é amigo Diogo...

Primeiro, parabéns pela iniciativa. Depois, só uma opinião.

O que os sites publicam de informação sobre os campeonatos, na maior parte dos casos limita-se a copy/paste dos press-releases, infelizmente. O que reforça a tua ideia de maior informação sobre os mesmos nas mags, porque os webs, obviamente, nem sequer a dão.

De uma forma geral, concordo com a tua análise das duas revistas, mas não na qualidade da linguagem utilizada. No caso da Surf Portugal, embora a maior parte dos textos estejam bem escritos, ainda se apanha alguns erros de português e muitos anglicismos/brasileirismos. Não há necessidade.

Quanto à On Fire, juventude e irreverência não quer dizer escrita pobre e com recurso a abreviaturas utilizadas em chats e sms's... acho que falta "escola jornalística". O que a SP tem, mas nem sempre utiliza.

Bom post! Parabéns

MP

Diogo Alpendre disse...

Antes de mais nada, obrigado!

Concordo contigo, existe essa tal falta de "escola jornalística" na Onfire e embora a Surf Portugal a tenha, nem sempre a usa.

Pois, realmente é muita pena o uso consecutivo dos press releases. Eu não sou jornalista (ainda ando a estudar para o ser..), nem escrevo para nenhuma revista mas até eu consigo fazer resumos de campeonatos. Dá trabalho? Dá.. É preciso ver os scores, os heats e saber alguns dados. Mas apesar disso, não é esse o trabalho das revistas? Não é para isso que elas também existem? Se eu faço por gozo, porque não fazem aqueles que são pagos para o fazer?

Abraço e vamos avante com a ideia da tertúlia !

Abraço e vai passando por aqui !

NL disse...

Parabéns pelo artigo.
Bastante interessante e pertinente.

Para já queria esclarecer que a revista Onfire é bimestral (de dois em dois meses) e não bimensal (duas vezes por mês).

Quanto às duas revistas há um ponto que considero bastante fraco em ambas: Os artigos e a profundidade com que são abordadas as matérias. Na minha opinião considero os textos bastante superficiais, ligeiros e mesmo até para o curto. Facilmente num dia leio toda a revista, e sem que acrescente nada de novo em relação à comunidade web. A vantagem da imprensa escrita perante a web seria mesmo a profundidade e desenvolvimento que as matérias podem ter.

Por exemplo, no caso do último campeonato Wct de Bells e ao julgamento do heat do Saca, não houve nada na revista que justificasse a sua compra. Nem um bom apanhado de tudo o que foi escrito e dito pelos media internacionais e online conseguiram fazer. O relato do campeonato parece um press release de uma qualquer agência noticiosa. Já nem comparo com os famigerados "Power Rankings", que são (eram) talvez das análises mais profundas, opinativas e, também, divertidas que podíamos encontrar na imprensa escrita. Por outro lado, revistas como a Surfer têm matéria para muitos e muitos dias de leitura pertinente (daquela que nos faz pensar e sentir) e costumo até guardá-las para mais tarde reler alguns dos artigos.

Sinceramente, mesmo as fotos, por muito boas que sejam, sem um devido enquadramento ao nível dos conteúdos não passam apenas de portfolios fotográficos, às vezes bem aleatórios. Não houve um único artigo da Surf Portugal que não considerei dignos de um maior desenvolvimento. O tema muitas vezes até é bom, mas não passam do básico.


Ironicamente, para mim a revista cuja leitura mais tempo dura e em que os artigos mais me fazem pensar é a revista FreeSurf. De todas, a que eventualmente terá menos meios e onde as fotos têm menos qualidade de impressão. Mas os conteúdos têm muito mais sumo, como se costuma dizer.

Abraços e boas ondas,
Nuno Lacerda

Diogo Alpendre disse...

Bom, Caro Nuno, antes de mais nada, obrigado por apareceres aqui.

De facto, a Onfire é bimestral (já foi corrigido no post. Obrigado ;) )

Eu não me quis adiantar muito no post porque já estava a ter proporções gigantescas mas uma das outras coisas que queria a abordar era a cobertira dos WCT, nomeadamante com a importância da altura em que vivemos visto que temos um atleta português a surfar entre os melhores. Fica para um próximo post que (te) garanto que irá aparecer brevemente.

Quantoas as fotografias, discordo um pouco de ti. É obvio que em certas rubricas as imagens e fotografias devem ser enquadradas e contextualizadas mas apesar disso não me importo nada de verdadeias "descargas" de imagens nas revistas, em rubricas específicas para isso, está claro.

Quanto à Freesurf, ainda não me convenceu. Falta-me algo, não sei se são imagens, textos mas lights mas algo falta na revista.

Abraço, boas ondas e vai passando por aqui.

Diogo aqui do blog.

Diogo Alpendre disse...

Errata :

"...já estava a ficar com proporções gigantescas.."

"Quanto às fotografias.."


Diogo aqui do blog

Joao Padua disse...

" A Onfire, está muito bem encaminhada e está cada vez melhor no seu aspecto gráfico e design, embora ainda longe da Surf Portugal."

Boas Diogo Alpendre, gostei mto da tua iniciativa e dos paralelismos que estableces entre as duas revistas, que me pareceram alguns mto bem colocados e outros mal. Concordo plenamente que os públicos alvo são completamente diferentes, e como tal o produto é, e tem de ser obrigatoriamente diferente. Por isso aplaudo a tua iniciativa e acho que nos faz falta este espírito e atitude de critica construtiva, principalmente no meio do surf.

Mas não posso deixar de discordar completamente do facto de dizeres que a nível de design a SurfPortugal e melhor que a ONFIRE. A meu ver, e na minha opinião a ONFIRE se apresenta alguma vertente mais fraco não é o design, mto antes pelo contrario. A SurfPortugal já passou pela mão de alguns designers mto bons e de grande referencia internacional / nacional (Zozi, Mariatchi), mas infelizmente a meu ver tem vindo a perder essa maturidade gráfica que adquiriu. Fico triste por isso se verificar pois esperava que a SurfPortugal continuasse a marcar a diferença de um design de "main stream".

Não seria justo não reconhecer que gostei da mudança de formato (dimensão da revista), mas não foi suficiente pois aproximou se mto da SurfEurope, e com a recente saida do Tiago Machado a coisa piorou bastante. Fico triste, e espero que consigam encontrar de novo um caminho.

João Pádua

João disse...

Quando começei a fazer surf, há cerca de 10 anos atrás, comprava todo o tipo de revistas, devorava as nacionais, juntava uns trocos para as europeias Surf Session, Tres60 e Surfer Rule e sonhava com as "internacionais" Surfer, Surfing e Tracks, nessa altura queria ver fotos, grandes aéreos, grandes tubos, sitios desconhecidos, aventuras, viagens... não ligava muito aos textos, só me interessavam aqueles que falavam de locais secretos, ondas lindas em cenários paradisíacos. Depois cresci, cheguei à idade que tenho hoje (22 anos) e deixei de comprar revistas. Quando calha, quando aparece aquela reportagem, aquela viagem, aquelas ondas, compro uma surfer, ou uma Tracks, mas revistas nacionais ja não consigo... talvês seja a divulgação da internet, o seu facil acesso, hoje em dia consigo toda a informação que quero, seleccionada por mim, através da internet, e tudo isto sem "estragar" papel, guardo aquilo que quero e "fecho" o que não me interessa. Mas o facto de não comprar revistas nacionais deve-se mais à sua (fraca) qualidade(!), cheguei a chamar de "SurfLisboa-e-arredores" à Surfportugal, e a On-Fire é melhor nem dizer nada...São revistas muito fraquinhas onde aparecem sempre os mesmos, sempre as mesmas ondas, sempre as mesmas discussões,os mesmos "sebastianismos", enfim, o reflexo de um país pequeno e com poderes extremamente centralizados. Quer isto dizer que vou continuar assim, feliz e sem gastar papel...
Boas ondas!

Thiago Dorta disse...

Parabéns pela discussão, meu irmão!
No Brasil, o cenário não é tão diferente quanto ao de Portugal.
As mesmas falhas sempre, as mesmas pessoas e ninguém interessado em passar um conteúdo de qualidade, um conteúdo que realmente agregue algo ao ser.

Grande abraço!
Boas ondas!

Thiago Dorta

jgoncal disse...

O que dizem da SOUP Magazine?

Tou a fazer um estudo sobre a mesma e, como não estou por dentro do surf nem das revistas especializadas, gostaria de saber a vossa opinião entre a SOUP e a Surf Portugal e a Onfire, se for possível.

Do que vejo, à partida da SOUP, é que se trata de uma revista com uma qualidade fotográfica fantástica e menos comercial.. muito ligada à sua filosofia, mais de culto, quase diria.

Obrigada!!